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Especial Trilogia da Vingança

Novembro 1, 2008

Um dos melhores diretores do oriente, Chan-wook Park teve sua Trilogia da Vingança lançada no Brasil fora da ordem cronológica, de modo que, quando Oldboy chegou às locadoras, ainda não existiam cópias de Mr. Vingança , o início da trilogia, disponíveis. Apenas recentemente tivemos a oportunidade de conferir além do começo, também o final de uma das melhores sagas construídas no cinema contemporâneo, Lady Vingança, que encerra a jornada, sob a ótica feminina da revanche.

Sem os mesmos personagens, com histórias diversas, trazendo atores de várias idades e revelando vários pontos de vista sobre o mesmo assunto, a vingança, Park conseguiu escrever para si um nome no ocidente. Sua maneira brutal de contar, mostrar e, o mais importante, a maneira como faz isso, com montagem eficiente, enquadramentos ousados e sugestões apropriadas, cria uma assinatura inequívoca de sua cinematografia.

Neste especial, os três filmes aparecem comentados, porém não assistidos em ordem. Oldboy foi o primeiro, depois um retorno à Mr. Vingança, e o fim com Lady Vingança, que considero o melhor, ao mesmo tempo o mais sutil, mais psicológico e mais vigoroso dos três. Deixando claro que esta escolha não acontece por deficiência dos anteriores, mas simplesmente porque se trata de um filme mais completo, talvez por ser a conclusão.

Outra característica admirável dos três filmes é a ironia, sempre presente, nos momentos mais inusitados, e conferindo uma dualidade espetacular às situações mais aterrorizantes. De cara, esta seqüência de filmes contém algumas características comuns: a perda, o cárcere, a vingança e a catarse. Desde já, fica o aguardo dos outros filmes de Park: I’m a Cyborg, But That’s Ok, de 2006 e Thirst , com estréia prevista para 2009, onde Park aterrisa na área dos vampiros e que pelas primeiras fotos, promete.

Enquanto isso, é tempo de procurar filmes anteriores do cineasta e esperar pelo que vem por aí. Enjoy!

Clique no pôster para ler o texto de cada filme:

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Lady Vingança

Novembro 1, 2008

A principal diferença de Lady Vingança em relação aos seus antecessores é o ponto de vista feminino. Para encerrar sua trilogia da vingança, Chan-wook Park liberta a alma feminina na forma de um anjo caído, uma condenada. Ao mesmo tempo em que ajuda uns é uma bruxa para outros, uma exterminadora. Essa dualidade, que entrega horror e humor ao mesmo tempo é uma das grandes qualidades dos três filmes e aqui, encontra a voz de uma mulher traída, que além da vingança, procura acima de tudo a redenção dos seus pecados.

Lee Geum-ja (Lee Yeong-ae) acaba de sair da prisão onde passou os últimos 13 anos presa como cúmplice do seqüestro de um garoto de 7 anos. Traída pelo amante Mr. Baek (Choi Min-sik), foi apontada como a assassina do garoto e, depois de passar todos estes anos planejando sua vingança, finalmente tem a chance de colocá-la em prática. Mas, primeiro Lee precisa reconstruir sua vida. Ela começa a trabalhar em uma padaria, reúne-se com sua filha adotada por australianos e parte atrás de Mr. Baek, verdadeiro assassino do garoto.

Como nos outros filmes, descobrimos a história de Lee aos poucos, sempre em uma narrativa não linear. Nas idas e vindas do roteiro conhecemos as companheiras de cárcere de Lee e entendemos alguns dos motivos que a fizeram mudar radicalmente sua personalidade na cadeia. O amadurecimento psicológico violento é requisito básico para a feitura do complexo plano de vingança que Lee tem em mente. Assim, quando sai da cadeia, ela não aparenta emoções variadas. Conserva sempre uma expressão séria beirando à melancolia e no rosto preserva um traço marcante nos olhos desenhado com sobra vermelha: a aridez da consciência no rosto branco contrasta com o furacão vingativo cor de sangue no olhar.

Chan-wook Park continua um mestre dos enquadramentos e com uma diversidade de planos incrível, consegue compor uma montagem espetacular. A variedade de cores aumenta drasticamente e vai do branco da neve, ao escuro da noite, passando é claro por muitos tons de vermelho. A violência gráfica aqui é bem menor do que nos outros filmes, mas, ela é substituída por uma violência psicológica incrível, tanto para personagens quanto para quem assiste. Apesar de ser ainda mais fragmentado do que Oldboy, Lady Vingança é extremamente contundente no que diz respeito à redenção.

Assim, quando chega ao final de sua jornada, Lee encontra-se vingada, porém sem o perdão que procurava para os seus pecados. Se, quando saiu da prisão ela sabia exatamente para onde ir, pois a vingança era a razão de sua liberdade, agora ela se encontra estagnada. Chega ao final provando de uma torta sem cor, sem ornamento, sem gosto e sem textura. Ao contrário das saborosas tortas que fazia na padaria onde trabalhava, a vingança de Lee serviu apenas para lhe deixar um gosto amargo e gelado como sua alma, resultado de um caminho doloroso pelo subsolo da mente humana.

Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjassi, 2005, Coréia do Sul)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-gyeong Jeong, Chan-wook Park
Elenco: Yeong-ae Lee, Min-sik Choi
Duração: 112 min.
www.imdb.com/title/tt0451094/

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Oldboy

Novembro 1, 2008

Nesta segunda parte da “trilogia da vingança”, Chan-wook Park entrega um filme mais vigoroso e bem mais original do que o primeiro exemplar Mr. Vingança. A primeira coisa que se pode notar é que cada filme tem a sua história e nelas existem diferentes personagens que possuem motivações diversas e isso é o que irá guiar seus atos insanos até os limites da loucura. Mas, de todos os sentimentos, já em Oldboy, duas características humanas parecem se sobressair: a dor da perda, a catarse e o castigo. Como produto disso, resta a transformação moral e o constante desequilíbrio dos personagens diante à face da tragédia de suas vidas.

Na história de Oldboy, Oh Dae-su (Choi Min-Sik) é um cara comum vivendo em Seul, que depois de uma noite de intensa bebedeira é raptado e enclausurado por 15 anos em um quarto. Sua única comunicação com o mundo é um aparelho de televisão dentro deste quarto. É através do noticiário que Oh Dae-su descobre que sua família agora está desmantelada. Sua mulher foi morta, a suspeita recai sobre seus próprios ombros e sua filha foi enviada ao estrangeiro. A passagem de tempo aqui é a grande ferramenta de tortura utilizada para fazer o personagem praticamente transformar seu caráter durante o cativeiro e acentuar o desmanche completo das estruturas psicológicas. Da mesma forma inusitada com a qual foi preso, Oh Dae-su é libertado repentinamente e agora habita uma cidade que não conhece mais.

Logo Oh Dae-su é solicitado pela própria pessoa que o raptou, Evergreen (Yu Ji-tae), a desvendar os mistérios e os motivos do seu seqüestro. Encontra uma amante, Mido (Kang Hye-jeong), que irá ajudá-lo a encontrar os responsáveis pela destruição de sua vida. A partir daí a violência física toma conta de Old Boy e faz com que este seja um exemplar de digna agressividade ao extremo. Á através desta violência visceral que o diretor se expressa para o espectador. Basta assistir cenas como a luta de Oh Dae-su com um grupo de capangas de Evergreen. Filmada com retoques de Tarantino, além de ser emblema do “escolhido”, que sozinho consegue derrotar muitos, nesta cena Oh Dae-su usa um martelo para vencer suas vítimas. Passada em um corredor aparentemente apertado, o espaço é temporariamente subvertido quando um plano lateral mostra o embate. Tortura mais apropriada talvez seja a extração de dentes que Oh Dae-su pratica em um dos antagonistas, onde cada dente representa um ano de cárcere.

Já no final, com o encontro dos personagens principais a história se transforma radicalmente em uma tragédia. Depois de sua perda, Oh Dae-su passa pela catarse em sua vingança e chega ao drama no final, com seu castigo, quando descobre os mistérios de sua volta às ruas. No entanto, a atuação de Choi Min-Sik como protagonista é o que mais chama a atenção. Misturando ironia e uma profundidade poucas vezes vista, o ator mergulha nos sentimentos do personagem e compõe uma caricatura fascinante sobre a arte da dissolução do caráter. Mas, de certa forma, podemos lembrar da sua bebedeira do início, e concluir que Oh Dae-su precisava apenas de um empurrão para liberar seu lado obscuro.

Oldboy (2003, Coréia do Sul)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Jo-yun Hwang, Chun-hyeong Lim
Elenco: Choi-min Sik, Ji-tae Yu, Dae-han Ji
Duração: 120 min.
www.imdb.com/title/tt0364569/

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Mr. Vingança

Novembro 1, 2008

Mr. Vingança é a primeira parte de uma trilogia espetacular do cineasta sul-coreano Chan-wook Park. Iniciada em 2002 com este exemplar a série aprofunda a insanidade e a sede de vingança que surgem em acontecimentos cotidianos simples, mas que tem o poder de acabar com a vida de seus protagonistas. Em conseqüências desastrosas e terríveis, que beiram o absurdo e testam os limites do que realmente é um ser humano. Mr. Vingança é um filme forte, sem concessões para estômagos fracos e utiliza todos os elementos fílmicos para criar uma atmosfera dantesca e caótica sobre os porões da psique dos personagens.

Nesta história, o jovem surdo-mudo Ryu (Shin Ha-Kyun) é um trabalhador comum de uma indústria de energia e, sem mais explicações, é demitido ao mesmo tempo em que sua irmã doente precisa de um transplante de rim. Sem encontrar doadores compatíveis para a operação, Ryu recorre ao mercado negro de venda de órgãos, acaba sendo enganado e junto com todas as suas economias vê a chance de cura para a irmã ficar mais distante. Ao mesmo tempo, é convencido pela namorada a seqüestrar a filha do ex-patrão, Dong-Jin Park (Song Kang-Ho). A pequena Yu-Sun (Hang Bo-Bae) é levada e o pedido de um resgate é efetuado, mas, quando a irmã de Ryu descobre o que o irmão fez, decide acabar com a própria vida. Este fato irá causar uma série de catástrofes que por fim causam a morte da menina Yu-Sun, por acidente, sob os cuidados de Ryu.

Agora, Ryu e seu ex-chefe Dong-Jin são dois homens desiludidos, enganados e praticamente sem vida. A única coisa que lhes resta é a sede de vingança contra as pessoas que acabaram com todos os seus sonhos e com as pessoas que amavam. Ryu procura os comerciantes de órgãos no mercado negro para se vingar da morte da irmã e Dong-Jin procura aqueles que raptaram sua filha e destruíram a única coisa pela qual ainda conseguia viver. No caminho da vingança, mais cedo ou mais tarde, estes dois devem se encontrar, tecendo planos mirabolantes e realizando a convergência da vingança definitiva, em imagens plasticamente perfeitas e chocantes.

O que mais impressiona em Mr. Vingança é a familiaridade do diretor com os sentimentos humanos. Assim como o restante da trilogia, composta por Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005), Mr. Vingança é um filme visceral, com cenas nada agradáveis, torturas físicas e psicológicas. Enfim, tudo aquilo que para Chon-Wook Park fazem parte da vida e também da morte.

Mas, a construção do filme é, de certa forma, feita de uma forma muito bonita. A fotografia é de cair o queixo, os ângulos de filmagem são sempre inovadores e os enquadramentos, por vezes, dão ênfase em séries de molduras. A melhor delas acontece em uma escada, onde vemos apenas sombras se movendo pelos degraus, e a cada novo plano, a imagem fica mais distante. É como se, no escuro, Ryu caminhasse para longe da realidade, antecipação do que realmente viria a acontecer. Ele sobe os degraus, mas para lugar algum.

Mr. Vingança (Boksuneun naui geot, 2002, Coréia do Sul)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Jae-sun Lee, Mu-yeong Lee
Elenco: Kang-ho Song, Ha-kyun Shin, Du-na Bae, Ji-eun Lim
Duração: 129 min.
www.imdb.com/title/tt0310775/

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