Arquivo da categoria ‘Críticas’

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Valsa com Bashir

Março 6, 2009

waltz_with_bashir1O Massacre de Sabra e Shatila foi metodicamente organizado por milícias cristãs maronitas ligadas à Força Libanesa e colocado em prática dentro dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila. Mais de três mil refugiados foram executados entre os dias 16 e 18 de setembro de 1982. O episódio, uma vingança pelo assassinato do líder palestino Bashir Gemayel por cristões libaneses, ficou conhecido como um dos mais violentos e sanguinários da Guerra Civil Libanesa. Na época, Israel havia invadido o Líbano e controlava os dois campos de refugiados localizados na zona oeste da capital, Beirute. Assim, especulou-se que o exército israelense seria parcialmente culpado por ter facilitado a entrada da milícia nos campos ou por ter falhado na proteção dos refugiados. Ariel Sharon, Ministro da Defesa de Israel em 1982 foi considerado pessoalmente responsável pelo massacre na Suprema Corte do país.

Mais de 26 anos depois do massacre, o diretor israelense Ari Folman compõe este documentário animado e autobiográfico onde procura por lembranças que possam revelar qual foi sua participação nos eventos de Sabra e Shatila. Folman esteve presente em Beirute em 1982 e surpreende-se com o fato de ter simplesmente apagado os acontecimentos de sua memória. Determinado a encontrar pistas para lembrar de seu passado, o diretor viaja em busca de velhos amigos e companheiros de guerra para lhes questionar o que exatamente aconteceu naqueles três dias de genocídio. Aos poucos, com novas informações e pistas, os próprios sonhos de Folman parecem se misturar com a realidade e conduzem o diretor para uma viagem e um resgate da história de seu próprio país.

É inegável que o assunto que predomina nas discussões sobre este filme é a política. Assim, com ponto de vista delicado e abordagem extremamente crítica, Valsa com Bashir causou comentários apaixonados desde suas primeiras exibições em maio de 2008 no Festival de Cannes. O grande trunfo do filme está em cutucar na ferida ainda exposta dos acontecimentos de Sabra e Shatila, dar continuidade à vasta história dos traumas de guerra e ainda entregar um filme visualmente incrível construído com desenho feito à mão e ainda feito por um judeu. A simples idéia de se contar a história do ponto de vista de um dos possíveis culpados já seria suficiente para catapultar o sucesso da obra.

Mas, junta-se a isso a contribuição espontânea vinda de fora da obra, que consiste em comparar o massacre com algum tipo de Holocausto provocado pelos judeus. Essa comparação, além de ser um tanto quanto desproporcional, está simplesmente incorreta, pois quem realmente deu cabo do massacre foram integrantes de milícias armadas dentro do próprio Líbano. Por isso era uma Guerra Civil. Mesmo assim, o que ainda exala do filme é que Israel tinha força, inteligência e capacidade de parar o massacre, mas decidiu não o fazer. A própria duração da matança revela um mundo de opções: 36 horas de explosões, tiros e gritos. Mesmo assim, Israel alega que não sabia e não teve quaisquer indícios de que um massacre se desencadeava.

Depois da política, claro que o filme tem coisas boas. O lirismo do desenho surgindo na tela é feito com excelência. No entanto, uma cena já é candidata a ficar marcada na história da animação e do cinema: a única lembrança que Folman tem consiste nele mesmo, junto com seus companheiros de exército, erguendo-se das águas de uma praia de Beirute e caminhando para a areia, enquanto sinalizadores militares iluminam a cidade. Da mesma forma, imagens surreais de todos os tipos brotam de sua imaginação o tempo todo e é a junção de todas elas que reconstrói, aos poucos, a memória de Folman.

O tom crítico parece ter afetado as chances que o filme tinha de levar o Oscar de filme estrangeiro, que seria mais do que merecido. No entanto, nunca um filme que critica Israel conseguiria tal façanha exatamente no país de maior concentração de judeus do mundo, pelo menos não nas atuais condições. Hollywood parece ser capaz de mudar muitas coisas e de se auto-recriar, mas, tolerar a idéia de que Israel tenha realizado um microcosmo do Holocausto, bom, isso já é pedir demais. A Lista de Schindler parece bem mais coerente neste aspecto.

waltz_with_bashir_posterValsa com Bashir (Vals Im Bashir, 2008. Israel, Alemanha, França, EUA)
Direção: Ari Folman
Roteiro: Ari Folman
Elenco: Ari Folman, Ron-Ben Yishai, Ronny Dayag
Duração: 90 min.
www.waltzwithbashir.com

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Quem Quer ser um Milionário?

Fevereiro 27, 2009

slumdog-3Em um ano de filmes mornos e negativos a Academia escolheu ser otimista e premiou a única alternativa que não compartilhava um ar sombrio de desespero. Apesar disso, Quem Quer ser Um Milionário? é uma história triste, mas, que perde o apelo para as cores do pop e do tratamento Bollywood. Em parte, isto seria devastador para o melodrama, mas, mesmo assim, Danny Boyle consegue sustentar o núcleo do filme com muito açúcar. Finalmente, ele conseguiu seu Oscar de diretor, muito mais pelo competente roteiro do filme, adaptado por Simon Beaufoy. Juntos, roteiro e fotografia é melhor que o filme tem a oferecer. Muito antes de ser um filme merecedor de tudo o que já se disse, este é um passo de estratégia para Hollywood e, definitivamente, abre as portas para uma nova onda de contratos milionários entre as indústrias cinematográficas de Índia e Estados Unidos.

A história de Quem Quer ser Um Milionário? gira em torno de Jamal Malik (Dev Patel), jovem sorteado para participar de um programa de perguntas e respostas na TV chamado Who Wants to Be a Millionaire?. Jamal trabalha servindo chás em uma empresa de telemarketing em Mumbai e é apenas isso que se sabe até o início de sua jornada. Ele está a apenas uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias e, quando o show para por uma noite, Jamal é preso e interrogado sob a suspeita de fraude. Durante o interrogatório, o inspetor (Irrfan Khan) procura desvendar se o garoto teve sorte, se trapaceou ou se realmente sabia as respostas. Em um exercício de não-linearidade, a cada pergunta Jamal recorre a um capítulo de sua vida e através das memórias, por mais sutis que elas sejam, consegue sempre responder as perguntas corretamente.

É assim que conhecemos sua infância em uma das mais terríveis favelas de Mumbai ao lado do irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal). É quando conhecemos também a história da morte de sua mãe e de seu amor pela garota de seu destino, Latika (Freida Pinto). Ao mesmo tempo em que as lembranças voltam a mente, Jamal tem de lidar com o absoluto deslocamento de sua figura em um show de TV que distribui milhões e desbancar o apresentador, Prem Kumar (Anil Kapoor) que tenta sabotar o jogo a todo o momento. Ainda, Jamal deixa claro que dá mais valor ao amor de Latika do que toda a montanha de dinheiro que está perto a ganhar na última pergunta.

Depois de ganhar 8 Oscar, provavelmente este filme será o assunto dos próximos meses. Não há nada que justifique tamanha reverência a um filme que não é sequer muito bom, é apenas razoável. Existem até comparações com Cidade de Deus, e digo que, talvez o filme brasileiro até merecesse mais prêmios do que Slumdog. Advirto que a trilha sonora e as canções devem ser escutadas apenas por quem nutre certa afinidade com sons indianos. Algumas boas atuações podem ser indicadas aqui e ali, mas, como sempre, o elenco jovem peca pela inexperiência. Já os coadjuvantes, como Irrfan Khan e Anil Kapoor estão muito mais competentes. A fotografia é até interessante, mistura captura digital e em película ao mesmo tempo, mas não apresenta nada sensacional, apenas belas imagens. Mesmo assim, se sobressai.

A impressão que se tem é que o mercado, a cada ano, está nivelando seus produtos cada vez mais abaixo da linha do aceitável. É incrível também como isso pode mudar de um ano para o outro. Basta lembrar no ano passado, a vitória de Onde os Fracos não Têm Vez, extremamente superior a este filme de Boyle. Lembre-se também que ainda no ano anterior, 2006, Os Infiltrados, filme absolutamente médio, trouxe o Oscar para Scorsese. Para mim Danny Boyle continuará sendo lembrado por Trainspotting e o domingo passado ficará na minha memória como o dia em que a novela das oito poderia ter ganhado o Oscar.

slumdog-posterQuem Quer ser um Milionário (Slumdog Millionaire, 2008, Reino Unido/França)
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Irrfan Khan
Duração: 120 min.
www.slumdogmillionairemovie.co.uk/

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O Curioso Caso de Benjamin Button

Fevereiro 22, 2009

benjamin-button-1Clichê! Tudo se transforma, independente da vontade da natureza. Quem comanda são os homens. Decidir resgatar a velha forma da parábola está no cerne deste filme e não é por acaso que o burburinho generalizado o esteja chamando de o novo Forrest Gump. Está tudo lá, todos os ingredientes que fizeram do longa de Robert Zemeckis um sucesso. Pudera, o roteiro é escrito pelo mesmo Eric Roth. Ok, mas isso é ruim? É claro que sim! Apesar de causar um impacto inicial interessante, ser um filme extremamente triste e deixar uma certa dor ao final, Benjamin Button é mais do mesmo, feito exatamente para o lugar que está ocupando. No entanto, isso já era previsto, nada de novo, como sempre.

Baseada em conto de F. Scott Fitzgerald, a linha da história segue a revelação de Daisy (Cate Blanchett) sobre Benjamin Button no exato momento em que o furacão Katrina atinge o sul dos Estados Unidos. Toda narrada em flashbacks, o ar sulista do país é, novamente, o palco de uma história fantástica, estranha e singular. Mas, desta vez, o Alabama de Gump é substituído pela Louisiana e pelas ruas de New Orleans, recheadas de blues e jazz. Button é abandonado pelo pai logo após seu nascimento. Acompanhamos os acontecimentos através de um diário do próprio Button, lido pela filha de Daisy, Caroline (Julia Ormond). Logo após o nascimento, Benjamin Button é abandonado pelo pai na porta de um asilo e, em seguida, adotado por Queenie (Taraji Henson), que o acolhe como um filho. Nascido no dia em que a Primeira Guerra acabou, Benjamin Button tem todas as características de um velho e rejuvenesce durante o curso de sua vida em uma jornada única, diferente de qualquer homem. É nos acontecimentos de toda a sua vida e nos seus encontros e desencontros com Daisy, seu grande amor, que acompanhamos esta história sobre o tempo.

Nada pode ser mais importante neste filme do que o tempo. Este é, em todos os níveis, a maior luta desencadeada pelo homem, e sempre sem sucesso. Talvez o mais interessante de Benjamin Button esteja no relógio que anda para trás, construído por um homem para que seu filho e muitos outros garotos pudessem voltar da guerra, sãos e salvos. Esta é uma das melhores cenas do filme, habitada pela metáfora da volta ao passado com a intenção de se consertar um grande erro ou uma grande tragédia. Ao mesmo tempo, existe a analogia com o beija-flor, um pássaro que bate suas asas mais de 50 vezes por segundo e que pode também voar para trás ou parar no ar. Esses dois pontos de história juntam-se ao próprio Benjamin que pode viver sua vida ao contrário. Mais do que isso, o beija-flor pode estar aqui relacionado com o fato de se olhar para o passado e, de certa forma, é assim que a história é contada. Está também relacionado com outros personagens, sugerindo que, de alguma forma, Benjamin não era o único com uma história fantástica. Tudo isso temporizado pelo relógio e seus ponteiros movendo-se de forma anti-horária.

David Fincher, finalmente, é reconhecido pela sua boa direção e até concorre ao Oscar, mas, é claro que isso não significa muito, já que este não é seu melhor filme. Outras obras vieram antes, mais originais, menos pretensiosas e que não caíram tanto nas graças da Academia quanto as 13 indicações de Benjamin. Há rumores de que o filme pode sair do Teatro Kodak de mãos abanando ou então ser “rebaixado” às categorias técnicas. Não é de se duvidar que, em tempos de crise, até a Índia seja uma escolha calculada para Hollywood encontrar uma saída. Para se ter uma idéia do buraco Hollywoodiano, este foi o ano em que a média de bilheteria dos indicados a melhor filme atingiu seu ponto mais baixo e também, até o dia das indicações, Benjamin Button corria sério risco de não conseguir pagar seu investimento absurdo de aproximadamente US$ 150 milhões.

Definitivamente, 2008 não foi um ano de grandes filmes, e se Benjamin Button é o melhor que se produziu, então a coisa é mais séria do que se pensava. Podem dizer que é fantástico, que é lindo e todo o resto da cartilha, mas Benjamin Button apenas oferece uma história irresistível, pontuada pela impossibilidade e que desde que o mundo era quadrado costuma perturbar o homem. Fora isso, Cate Blanchett está muito bem, como sempre, Brad Pitt estaria melhor com os Irmãos Coen e a fotografia é extremamente burocrática. Sem mais.

benjamin-buttonO Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008)
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji Henson, Julia Ormond, Jared Harris, Tilda Swinton
Duração: 166 min.
www.benjaminbutton.com/

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O Leitor

Fevereiro 13, 2009

thereader_003A história do filme diz respeito a um advogado de meia-idade, Michael Berg (Ralph Fiennes), que através de flashbacks lembra de uma paixão carnal que teve aos 15 anos com uma mulher mais velha, Hanna Schmitz (Kate Winslet). Sempre depois da escola, Michael, interpretado na juventude pelo novato David Kross, ia para casa de Hanna e dividia com ela toda a literatura que os professores lhe passavam. Assim, Michael era realmente “o leitor”, e contava histórias como A Odisséia sempre em voz alta. Um desejo sexual também surge e neste ponto é Hanna quem ensina tudo o que sabe ao garoto, inevitável que caíssem em uma paixão secreta, que ninguém próximo a Michael poderia saber. No entanto, de uma hora para a outra Hanna desaparece, deixando para trás um garoto com o coração partido e muitas perguntas. Anos depois, já na faculdade de direito, Michael participa de um julgamento referente a crimes cometidos em campos de concentração nazistas. Eis que Hanna aparece como uma das acusadas, assim, o passado volta com tudo e promete grandes emoções para o futuro de Michael.

Na minha opinião, filmes feitos pra ganhar Oscar são terrivelmente chatos. São peças de cinema feitas sob encomenda, com limitações em todas as áreas, seja nas atuações ou até mesmo na direção. Claro que existem algumas poucas exceções, que estão se tornando cada vez mais raras. É como se um cara fosse responsável por ficar com o regulamento da Academia na mão durante toda a produção da obra, dizendo o que pode e o que não pode ser feito.

Uma figura que se especializou em fazer isso foi Harvey Weinstein, todo poderoso do cinema independente americano, que fez esse tipo de filme se tornar, de alguma forma, rentável. Este cara é co-fundador da Miramax, empresa que lançou no mercado filmes como Pulp Fiction, Trainspotting, Chicago e a bomba Shakespeare Apaixonado. Largamente criticado por seu lado “cartola de estúdio”, alguns dizem que a grande façanha de Kate Winslet e Stephen Daldry em O Leitor foi aturar Harvey durante a produção do filme. Depois da venda da Miramax para a Disney, em 2005, Harvey pariu a Weinstein Co., estúdio que banca este novo filme.

Apesar de tudo isso pesando contra o filme, Stephen Daldry é um bom diretor. Aliás, é o único a ser indicado para o Oscar de melhor diretor em todos os longas que dirigiu e ainda, fez isso três vezes seguidas. Primeiro com Billy Elliot, em 2000, depois com As Horas, em 2002 e agora com este O Leitor, drama de guerra inspirado no romance de Bernhard Schlink. No entanto, o peso do regulamento trava tudo. O filme passa de uma história quente e interessante, ousada e nova para algo completamente monótono e frio no final. Alguns dos melhores trechos da história são do romance entre os dois quando Michael ainda é jovem. Por alguns momentos, parecia, realmente, que as amarras que prendiam o filme a possíveis estatuetas douradas estariam desaparecendo. Mas, apenas impressão. O resultado acaba sendo mediano, abaixo do que Daldry poderia render, como fez no fantástico As Horas, por exemplo.

Quando da divulgação dos candidatos à melhor filme pela academia, a crítica generalizada chiou ao ver O Leitor entre os nomes. Para a maioria o filme vem tirar o lugar de Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes, de Gran Torino, de Clint Eastwood, ou até mesmo de O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Particularmente, acho difícil que o filme do Batman fosse indicado, basicamente porque temos um vencedor da área da fantasia alguns anos atrás com O Retorno do Rei. Muitos dizem que as indicações de O Leitor fazem parte do efeito Harvey Weisntein, afinal, Oscar é política e popularidade aliada ao regulamento, e isso poderia dar uma idéia da força deste cara em Hollywood.

Mas, no final das contas, O Leitor continua prestando homenagem às artes, como sempre acontece nos filmes de Daldry. Aqui, a literatura pode até ser definida como um canal de ligação entre duas pessoas, ou como o laço que une dois corações completamente diferentes em estado de paixão. No entanto, o verdadeiro assunto do filme é como as novas gerações lidam com os crimes de suas gerações passadas e como isso influencia definitivamente o destino de todos. Só por esse tipo de questionamento estar na tela, já é suficiente até aqui. Ah, e Kate Winslet entrega uma atuação gigantesca. Veja, mas apenas uma vez.

the-reader-poster-11O Leitor (The Reader, EUA, Alemanha, 2008)
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: David Hare
Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross
Duração: 124 min.
www.thereader-movie.com

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Queime Depois de Ler

Fevereiro 10, 2009

queime-depois-de-ler-fotoDepois de abocanhar o Oscar de melhor filme em 2007 com Onde os Fracos não Têm Vez, os Irmãos Coen voltam à tela grande em formato comédia. Depois de apresentar um dos melhores filmes da carreira, Joel e Ethan compõe uma história voltda para os bem conhecidos tipos americanos, desde o homem comum babaca até o arrogante inteligente que sempre sabe ter razão. Esses personagens do universo Coen já produziram cenas sensacionais e, em muitos filmes, estiveram lado a lado com o acaso e com o inexplicável, apenas alguns elementos da vasta filmografia dos criadores de Fargo. Queime depois de ler é completamente demente e joga todos os seus personagens para o campo do nonsense e da babaquice. Mesmo assim, o tempo cômico e a precisão de humor é sensacional.

Osbourne Cox (John Malkovich) é um agente da CIA que começa a escrever um livro sobre suas memórias depois de ser demitido. Sua mulher, Katie (Tilda Swinton), está tendo um caso com Harry (George Clooney), um agente do departamento estadual de segurança, e espera que ele se separe da esposa. Como arquivo de dados para o processo, Katie grava informações confidenciais do marido em um CD, que cai nas mãos de dois funcionários de uma academia de ginástica. Linda Litzke (Frances McDormand, ótima!), solteira de meia idade, não vê a hora de fazer diversas cirurgias plásticas, e procura a forma mais rápida de conseguir o dinheiro para isso. Chad (Brad Pitt, engraçadíssimo!) não tem praticamente nada na cabeça e preocupa-se apenas com exercícios físicos e escuta músicas em seu iPod. Como o slogan do filme diz “Inteligência é relativa”, Chad julga que dados de alto escalão da inteligência americana foram gravados no disco e com a ajuda de Linda, começam a correr atrás de uma possível recompensa.

Nada em um filme Coen é normal. A começar pelo roteiro, as histórias de todos os personagens começam praticamente separadas, como ruas paralelas que nunca se encontram. Um leve descuido, passo em falso, uma ação não refletida ou simplesmente o mero acaso são suficientes para desencadear reações estapafúrdias e fazer destinos que antes andavam para lados opostos, agora formarem uma estrutura de choque e de junção de realidades.

Ainda existe a adição de uma boa dose de extraordinário, como uma morte chocante ou um susto bem colocado, ou então uma reação tão idiota de um personagem, que se torna engraçada simplesmente pela encenação e pela situação. É fato: humor negro e tempo cômico é um dos pontos fortes do cinema dos Coen e não é diferente neste filme. As cenas entre Brad Pitt e Frances McDormand revelam trejeitos e nuances que beiram o besteirol. Nada que a vida real americana já não tenha visto, em algum lugar devem existir correspondentes à altura da ficção.

Outra característica importante do cotidiano americano é a face psicótica à que chega a paranóia social constante. Uma das maiores tiradas do filme é a cena em que Linda, sem obter sucesso ao subornar Osbourne com o CD, decide levar as “informações confidenciais” aos russos. Não é surpresa, no entanto, que ela se leve totalmente à sério com essa ação de “espionagem”. Na verdade, Queime depois de ler fala muito mais de um tipo de personagem do que de uma ou outra pessoa em especial. Fala do americano comum, que acredita piamente na televisão, que vai ao cinema rir de baboseiras ainda piores que a sua própria vida e que leva sua existência de forma idêntica ao vizinho do lado. Não é um filme genial, mas bem acima do que se costuma ver nas comédias atuais.

queime-depois-de-ler-posterQueime depois de ler (Burn after reading. EUA, Reino Unido, França, 2008)
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen
Elenco: Frances McDormand, John Malkovich, Brad Pitt, George Clooney, Tilda Swinton, Richard Jenkins, J.K. Simmons, Olek Kupra
Duração: 96 min.
www.burnafterreading.com

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Sou Cuba

Fevereiro 3, 2009

soy-cuba-3Lançado em 1964, Sou Cuba possui uma história muito maior do que o próprio filme. Está diretamente ligado com a propaganda socialista promovida pelo governo de Fidel Castro, poucos anos depois de subir ao poder. Quando a ditadura de Fulgencio Batista é derrubada, em meados de 1961 uma crise diplomática leva os Estados Unidos a determinar bloqueio comercial à ilha. Recusada pelo Tio Sam, a ilha foi admitida pelos soviéticos. A antiga União Soviética, além de abrigar Cuba dentro de sua estratégia de propagação do socialismo internacional, enviou um grupo de jovens cineastas e intelectuais para a ilha, na esperança de rodar uma co-produção. Neste momento, Fidel já havia fundado o ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Indústria Cinematográficos), e foi, pelas mãos de Mikhail Kalatozov na direção, Yevgeni Yevtushenko no roteiro e Sergei Urusevsky na fotografia, que nasceria, dois anos depois, a mais fantástica propaganda e odisséia cinematográfica de que o cinema cubano teria notícias. Nascia também um fracasso estrondoso, destinado a ser redescoberto e reavaliado quase 30 anos depois.

A história de Sou Cuba é dividida em quatro segmentos, cada um com personagens distintos, mas, de alguma forma todos representam ideais socialistas de importante apelo para justificar a revolução. A primeira história é de Maria (Luz María Collazo), humilde como a maioria da grande massa cubana, envergonha-se quando um marido em potencial descobre que, na verdade, Maria é uma prostituta. No segundo segmento, Pedro (José Gallardo), um fazendeiro já idoso e preocupado com o futuro dos filhos, perde os sentidos quando descobre que suas terras lhe foram roubadas e queima toda a sua lavoura. Na terceira história, Enrique (Raúl Garcia), um estudante universitário enfrenta as hordas de soldados ao ver seus camaradas revolucionários morrerem nas ruas. No último ato, Mariano (Salvador Wood), pacato morador das colinas tem de defender sua mulher e filhos quando o ditador Batista bombardeia as montanhas. Posteriormente, Mariano se junta à guerrilha socialista para lutar por justiça.

Todas estas histórias não teriam absoluta importância se não tivessem sido escritas para reafirmar a necessidade da revolução e da mudança de poder. Mas, mais importante do que as histórias em si é a forma como elas foram feitas. Se fosse necessário resumir o filme em poucas palavras, diria que se trata de um exercício exaustivo de planos-seqüência e fotografia. Destaque para uma das primeiras cenas do filme, rodada na cobertura de um hotel, onde a câmera termina dentro de uma piscina depois de mostrar todos os tipos presentes no local, incluindo a banda de música ao vivo. Além disso, a seqüência do cortejo fúnebre e passeata pelos estudantes mortos em confronto com a polícia é de uma engenharia poucas vezes vista na história do cinema. Tudo isso filmado com uma película exclusiva, utilizada pela agência espacial russa que adicionava tonalidades e prata e aumentava o contraste de forma significante para conseguir o tipo de imagem que Kalatozov e Urusevsky queriam imprimir no negativo.

Depois de exaustivas filmagens e um processo de feitura controverso, que se alongou por cerca de dois anos, a estréia do filme em Cuba e na antiga União Soviética foi praticamente um desastre. Ambas as platéias não gostaram do resultado e o filme foi retirado de cartaz com apenas uma semana de exibições. Com duas horas e vinte minutos de projeção, Sou Cuba acabou esquecido por anos. Quando a União Soviética veio à lona, o filme era virtualmente desconhecido. Depois de algumas exibições em festivais, principalmente em Telluride, a obra caiu nas graças de ninguém menos que Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, que trataram de trazê-lo para a América e fazer seu relançamento já na metade da década de 1990.

Recentemente o brasileiro Vicente Ferraz rodou o documentário Soy Cuba – O Mamute Siberiano, onde narra sua jornada em busca do filme perdido, interpretando-o como um fóssil enterrado no gelo russo e na floresta tropical cubana. Ferraz visitou equipe técnica e elenco da produção, averiguando toda a atmosfera nostálgica, excitante e ao mesmo tempo amarga da construção e derrocada do sonho socialista, e que está presente, de forma determinante do filme de Kalatozov. Este, aliás, que morreu inconformado com o fracasso do filme, como relata Ferraz em seu documentário. Mal sabia Kalatozov, que estava compondo uma obra sem precedentes no cinema mundial. Uma página da história cubana que teve de se tornar um fóssil para depois ser redescoberto.

soy-cuba-posterSou Cuba (Soy Cuba. União Soviética, Cuba, 1964)
Direção: Mikhail Kalatozov
Roteiro: Enrique Pineda Barnet, Yevgeni Yevtushenko
Elenco: Salvador Wood, Sergio Corrieri, José Gallardo, Raúl Garcia, Luz María Collazo, Celia Rodriguez
Duração: 141 min.
www.imdb.com/title/tt0058604/

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Linha de Passe

Janeiro 25, 2009

linha-de-passe3No site da IMDB, a frase que define a trama de Linha de Passe é a seguinte: “Quatro irmãos de uma família extremamente pobre lutam para se tornarem o que sempre sonharam…jogadores de futebol”. Na verdade, há uma confusão aqui, pois apenas um destes quatro irmãos pretende se tornar um jogador de futebol no filme. Com tantos filmes parecidos, é fácil confundir. Mas, já que a estética favela continua com tudo no cinema nacional, qual a importância dos sonhos dos outros irmãos? Afinal, entra ano e sai ano e o Brasil continua o país do futebol, então é natural que todo mundo aqui queira ser jogador, nem que seja do campeonato da várzea ali da esquina. É natural também que um filme como este, que faz companhia a todos os outros que falam sobre pobreza, tente a todo o momento despertar a pena e a compaixão no espectador. Diga-se de passagem, até consegue ser um tanto sincero, mas aos poucos se torna um emaranhado de clichês bem piegas.

Mas vamos para a estória: Cleuza (Sandra Corveloni, razoável!) é uma mãe de família na periferia de São Paulo que luta todos os dias para sustentar a casa e ainda fazer papel de “pai e mãe”. Trabalha como doméstica, tem quatro filhos e, aos 42 anos está esperando o quinto rebento. O filho mais novo, Reginaldo (Kaique de Jesus Santos, ótimo!), passa os dias dividido entre a escola e à procura do pai, que nunca conheceu, e que sabe apenas ser negro e motorista de ônibus. Dario (Vinícius Oliveira) sonha em ser jogador de futebol e enfrenta, com determinação, uma peneira atrás da outra. Só que está prestes a entrar na maioridade e aos poucos vai ficando para trás, vendo seu sonho escapar por entre os dedos ao longo dos testes. Dinho (José Geraldo Rodrigues) trabalha em um posto de gasolina e é um dos devotos fiéis de uma igreja evangélica, onde procura esconder por trás da fé sua necessidade de afeto e sua falta de perspectivas. Dênis (João Baldasserini) trabalha como motoboy e divide seu tempo entre as ruas da cidade, um filho que já cresce sem a presença do pai e saídas diversas com outras mulheres.

Se há algo interessante em Linha de Passe, é a relação entre a estagnação da família, em todos os sentidos, e a pia da casa que a mãe não consegue desentupir. Pia entupida, vida entupida. Este sentimento, sim, está próximo da realidade de muitos brasileiros, mas, o futebol desempenha aqui um clichê poderoso, que aliado à religião, concentra para as classes menos favorecidas o espetáculo das massas. A simples reprodução disso deixa um gosto de mais do mesmo e não adiciona nada muito novo à nova-velha fórmula do cinema da retomada. Muito melhor, teria sido um documentário sobre estes mesmos assuntos, com pessoas verdadeiras e sem atores. Não há sinal que justifique um prêmio de atuação em Cannes para Sandra Corveloni, desconhecida do grande público até então. É uma boa atriz, mas praticamente não chama a atenção. Todos eles, lutam para andar para a frente e passar da “linha” que os separa da sociedade.

Por outro lado, Kaique de Jesus dos Santos, que interpreta Reginaldo, entrega melancolia, praticidade e ternura ao encarnar uma criança no meio deste circo todo. São dele as cenas mais significativas do filme, que culminam em um final apoteótico, onde Reginaldo praticamente extermina todas as amarras e sai livre pelo mundo, pilotando sua própria vida. Ademais Linha de Passe não empolga. O roteiro é bem construído e bem conduzido por Walter Salles e Daniela Thomas na direção, mas está longe de ser um filme brasileiro forte. É apenas um filme brasileiro, mais um, de tantos, abaixo da tal linha de passe ou linha da normalidade: senso comum.

linha-de-passe-posterLinha de Passe (Brasil, 2008)
Direção: Walter Salles, Daniela Thomas
Roteiro: George Moura, Daniela Thomas, Bráulio Mantovani
Elenco: Sandra Corveloni, Kaique de Jesus Santos, Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues
Duração: 113 min.
www.paramountpictures.com.br/linhadepasse/

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Quase Famosos

Janeiro 19, 2009

almostfamous-picVi Quase Famosos pela primeira vez no cinema quando tinha 18 anos. Minha reação ao final da projeção foi ao mesmo tempo ingênua e irresistível: escutar The Who depois de acender uma vela e encontrar pelo menos uma Penny Lane durante o curso da vida, seja onde for. Naquela época ainda não sabia muitas coisas sobre rock n’ roll, o máximo que escutava eram bandas contemporâneas que faziam um som muito diferente de Led Zeppelin e companhia. Com a Internet ainda na idade da pedra, MP3 nem sonhando em nascer e sem sinal algum de que um dia teríamos locadoras de DVD na cidade, corri à loja de CDs mais próxima e efetuei a compra da trilha sonora do filme. Esta seria minha referência para o que tinha acabado de ver e que, de alguma forma mística, pedia para ser visto novamente e aprofundado. Obrigado Cameron Crowe!

O roteiro de Quase Famosos é muito bem escrito, um tipo de semi-autobiografia do diretor Cameron Crowe. William Miller (Patrick Fugit) é um aspirante à jornalista de 15 anos que tem a chance de cobrir a turnê da banda Stillwater para a revista Rolling Stone. O garoto parte então para uma jornada onde o que menos importa é a veracidade dos fatos, e é advertido por Lester Bangs (Phlip Seymour Hoffman) a aproveitar todo o circo, mas nunca cair de amores pelos astros do rock. Na estrada, William conhece e se apaixona por Penny Lane (Kate Hudson), uma groupie misteriosa que se recusa a dizer seu verdadeiro nome e é apaixonada pelo vocalista da banda, Russel Hammond (Billy Crudup). Enquanto o garoto atravessa o país, sua mãe possessiva Elaine (Francês McDormand, perfeita), tem a certeza que cometeu um erro ao deixar o filho sair de casa para a estrada.

Poucas vezes um exercício de cinema foi tão bem sucedido como neste filme. Tudo está praticamente perfeito em tela. Desde a representação da família americana de classe média, passando pela caracterização da banda Stillwater, que apresenta músicas e astros que lembram, e muito, a banda Led Zeppelin. Mas talvez o melhor em todo o filme seja a capacidade que diretor, elenco e equipe técnica tiveram de criar, depois de quase 30 anos, a mesma atmosfera do auge do rock n’ roll do final dos anos 60. Está tudo lá: discos de vinil, carros clássicos, ônibus metálicos, camisetas de duas cores, a caneta Bic amerela com tampa azul, hippies, groupies e, é claro, a música, sem ela este exercício não daria em absolutamente nada. Mas, para um filme mais completo ainda, assista ao Director’s Cut, sensacional.

A trilha sonora é algo estupendo. Recheado com o que de melhor se produziu no rock n’ roll daquela época, o disco conta com nomes como The Who, Yes, The Seeds, David Bowie, Simon & Garfunkel, The Beach Boys e é claro, Led Zeppelin, entre outros. Mas, talvez a música que consiga representar de maneira mais completa o significado deste misticismo todo é Tiny Dancer, de Elton John, tema escolhido para uma das cenas mais antológicas do cinema, dentro do ônibus da banda. É impressionante a aura fantástica e dolorida que a música passa a possuir depois de embalar uma cantoria desenfreada dentro do ônibus da banda Stillwater. Penny olha para William e diz: “Você está em casa!”.

É mais ou menos como me senti ao fim daquela sessão de cinema, quase nove anos atrás, também me sentia em casa. E, dizem, tudo sempre acontece por causa de uma garota, Penny Lane trouxe para Kate Hudson um lugar aconchegante dentro do meu peito, por mais que a atriz agora amargue personagens débeis e veja sua carreira reduzida a comédias idiotas, ela sempre será a eterna Penny Lane, a razão de a música existir, a inspiração para todo o circo. Cameron Crowe também não anda lá muito bem das pernas e depois de Quase Famosos não conseguiu mais o mesmo sucesso com seus outros filmes. Claramente, já não se faz música como antigamente e muito menos filmes, Quase Famosos é uma exceção e uma unanimidade para o pessoal que se diz órfão dos anos 60, embora nunca tenha vivido a época propriamente dita.

No fim da contas, Quase Famosos é um filme feito por um cara que não é cool, para uma platéia muito menos cool, e que provavelmente vai ser, por um bom tempo, um símbolo da liberdade que só a música consegue trazer. Por isso, Quando estiver meio pra baixo, não leve a sério, passe em uma loja de discos e visite seus amigos. Como Penny diz: It’s all happening.

almost_famous-posterQuase Famosos (Almost Famous. EUA, 2000)
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Elenco: Kate Hudson, Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Jason Lee, Zooey Deschanel, Michael Angarano, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk
Duração: 122 min./162 min.
www.imdb.com/title/tt0181875/

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Violência Gratuita (2007)

Janeiro 6, 2009

funny-games-devon-gearhart12Em dezembro chegou às locadoras este Violência Gratuita, último filme do diretor austríaco Michael Haneke, responsável, entre outras coisas, pelo ótimo Caché (2005). É impossível falar deste filme sem, por consequência, falar de outro Violência Gratuita, de 1997, também realizado por Haneke. Mas, é claro que eu teria de assistir esta versão anterior e foi então que a coisa complicou. Na cidade não existem cópias da versão de 1997, portanto, a única solução foi recorrer ao meu tio, o Seu Torrent. Com as duas versões devidamente assistidas, eis o que você precisa saber sobre o novo Violência gratuita.

Os americanos Ann (Naomi Watts) e George (Tim Roth) viajam para sua casa no lago em companhia do filho Georgie (Devon Gearhart). São surpreendidos por dois rapazes psicopatas, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet), que passam a fazer a família refém em sua própria casa. A aparente desorientação da qual sofrem os dois garotos fica evidente quando seu comportamento começa a flertar com a tortura e a brincar com o horror como se fosse um jogo comum e entediante. Quando Paul vira-se para a câmera e conversa com o espectador, lhe fazendo participar da sessão de tortura, o tom polêmico, sempre presente nas obras de Haneke toma conta da obra. É então que uma série de reviravoltas parece também brincar com o destino dos personagens, propositadamente.

Ao contrário do que se imagina, o diretor não mudou praticamente nada na nova versão. Com exceção do elenco, formado agora por grandes nomes do cinema, fez questão até de filmar os mesmos enquadramentos, os mesmos planos e o mesmo roteiro. A partir disso, a questão mais recorrente para todos os críticos era: por que diabos Haneke fez dois filmes idênticos? Alguns chegaram à conclusão de que o cineasta é simplesmente excêntrico. Outros decidiram abandonar o filme e lhe rogaram o título de um dos piores do ano passado. Outros ainda dizem que o segredo de Haneke é interpretar a mudança no espectador e não no filme. Dificilmente dois ou mais críticos chegavam à conclusão de algo positivo sobre a obra.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que este novo elenco de Haneke é por demais fraco em relação ao da obra original. Não existe comparação possível entre Tim Roth e Ulrich Mühe (A vida dos outros), responsável pelo papel de patriarca em 1997. Talvez essa mudança crucial já seja determinante para transformar o produto, afinal, atuações não podem ser idênticas. Depois, não é nenhuma novidade o apelo gerado pela capacidade que alguns personagens tem de se voltar para o público ou de, teoricamente, reescrever suas histórias. Resta o apelo da violência em si que, provavelmente, poderia acontecer com qualquer um de nós. Mas, não existe nada neste filme que já não tenha sido apresentado em Laranja Mecânica, por exemplo, cerca de 40 anos atrás. Não há nem ao menos um novo ritual sádico para fazer valer o ingresso, se é isso que a maioria procura.

No entanto, existem algumas situações que podem ser levantadas. Como o caso da estética da repetição de Haneke, que atingiria níveis estratosféricos, com dois produtos idênticos, com intervalo de dez anos. Resta saber se daqui mais dez anos, o cineasta irá refazer Violência gratuita com um novo elenco. Outro ponto importante é o do acaso: Haneke é tentado pelas obras abertas, com vários significados e ao mesmo tempo nenhum. Assim, a história deste novo filme seria apenas mais um ato de violência aleatório contra uma família qualquer, realmente ao acaso. O fato é que a discussão sobre as razões de Haneke está longe de acabar, e é por isso que ele é um cineasta tão polêmico.

Mas, acho que a verdadeira intenção do diretor foi criticar a violência como entretenimento, ou a utilização dela para recreação. Afinal, a violência vista na tela nunca pode ser real, é sempre estilizada e recriada sob algum ponto de vista. Talvez a violência sem um sentido plástico seja um tipo de riso sarcástico de Haneke àqueles que engrossam as platéias para ver sempre a mesma repetição de um pastiche enlatado e coreografado de forma milimétrica. Touché, Tarantino.

funnygames_01Violência Gratuita (Funny Games U. S., 2007. EUA, França, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália)
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearhart
Duração: 106 min.
www.imdb.com/title/tt0808279/

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O escafandro e a borboleta

Dezembro 29, 2008

the-diving-bellA idéia de que a imaginação é a chave para a liberdade de uma mente presa em um corpo físico não é nova. Não é nem ao menos original. Parece lógico para as cabeças mais avançadas que o intelecto pode e sempre consegue ir muito além da concepção física. Mas, é difícil se desprender da materialidade no atual estilo de vida contemporâneo. Sabemos que nossa mente é capaz de ir mais longe, mas, insistimos em podar essa habilidade em troca de uma existência mais segura e mais familiar com as coisas que conhecemos. Imagine então o contrário: que você fosse forçado a viver em um corpo que não lhe é mais útil e tivesse de se expressar suas idéias e vontades através do mísero piscar de um olho. Esta é a premissa de O Escafandro e a Borboleta, dirigido de forma brutal por Julian Schnabel e baseado em história real do jornalista e editor da revista Elle francesa, Jean-Dominique Bauby.

Bauby (Mathieu Amalric) acorda em um hospital sem conseguir falar ou movimentar o corpo. Só consegue mexer o olho esquerdo, preserva algum traço de audição e está ciente de tudo o que acontece ao seu redor. É informado pelos médicos que sofreu um derrame, passou cerca de 20 dias em coma e agora desenvolve o que os especialistas chamam de síndrome “locked in”, onde o sujeito é encarcerado dentro de seu próprio corpo sem possibilidade de se mexer ou de se comunicar com o mundo. Imediatamente a fonoaudióloga Henriette (Marie-Josée Croze) é apresentada a Bauby. Ela será uma das responsáveis pela façanha de ajudar o jornalista a descobrir sua transformação em vários aspectos: de uma pessoa egocêntrica e mesquinha ao cárcere no seu corpo-escafandro à transformação em borboleta quando sai do seu casulo-escafandro.

Primeiramente sua comunicação é reduzida ao piscar uma vez, que significa “sim” e ao piscar duas vezes que significa “não”. Henriette aos poucos inventa um sistema de comunicação adaptado para Bauby, onde um alfabeto construído com as letras mais utilizadas na língua francesa é lido em voz alta e Bauby pisca quando quiser escolher uma letra. As seqüências onde Bauby e Henriette dialogam para a formação de palavras estão entre as mais angustiantes do cinema e ao mesmo tempo são cenas bem construídas. Foi através desta técnica que Bauby conseguiu escrever o livro com a ajuda de Henriette, depois de piscar seu olho esquerdo mais de 200 mil vezes e demorar cerca de dois minutos para a construção de cada palavra.

Impressionante também é a forma com que o diretor Julian Schnabel conseguiu representar a claustrofobia da síndrome “locked in” ao apresentar Bauby com uma câmera subjetiva no lugar do olho esquerdo. É através desta perspectiva que conhecemos as pessoas que o cercam, inclusive sua ex-esposa Céline (Emmanuelle Seigner) e seus três filhos. Através do trabalho com o foco e com jogos entre as diversas lentes que utiliza, Schnabel consegue transmitir os movimentos oculares, a sensação de uma lágrima e até mesmo sugerir coisas que não podemos fazer com o olho, mas que são necessidade do personagem, como gritar, por exemplo. No entanto, esta estética toma mais da metade do filme e, a certo ponto, começa a incomodar. Bauby decide, então, mudar sua história e assim, depois dos 40 minutos de filme, começamos a ver tudo por outro ângulo.

A câmera deixa a posição subjetiva e começa a mostrar suas memórias e inquietações. Relembra o pouco caso que fazia das mulheres e das pessoas em geral, sente saudades do pai, interpretado por Max von Sydow e celebra o contato com os filhos e a ex-mulher em um passeio pela praia. Aliás é de von Sydow uma das melhores cenas do filme, quando tenta falar com o filho por telefone em vão: o silêncio da espera e a audição do ditado da fonoaudióloga são ensurdecedores.

É fácil, ao assistir O Escafandro, lembrar de outros filmes baseados em histórias reais e com protagonistas impossibilitados de locomoção. Mas, diferente de Ramón Sampedro em Mar Adentro (2004), Bauby não defende a eutanásia e não luta para morrer, ele luta para se expressar. Tanto que faleceu apenas dez dias depois de finalizar o livro com Henriette. Schnabel soube transmitir toda a humanidade para o filme, inclusive o humor em determinados momentos. Mas, o mais importante é que conseguiu, de forma didática, exemplificar um cárcere ao qual todos podemos sucumbir a qualquer momento e demonstrou que ele pode ser apenas um estágio para fora do nosso casulo material.

diving-bell-posterbigO escafandro e a borboleta (Le scaphandre et le papillon, 2007. França, EUA)
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Ronald Harwood
Elenco: Mathieu Amalric, Max von Sydow, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Jean-Pierre Cassel
Duração: 112 min.
www.imdb.com/title/tt0401383/

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