
O Curioso Caso de Benjamin Button
Fevereiro 22, 2009
Clichê! Tudo se transforma, independente da vontade da natureza. Quem comanda são os homens. Decidir resgatar a velha forma da parábola está no cerne deste filme e não é por acaso que o burburinho generalizado o esteja chamando de o novo Forrest Gump. Está tudo lá, todos os ingredientes que fizeram do longa de Robert Zemeckis um sucesso. Pudera, o roteiro é escrito pelo mesmo Eric Roth. Ok, mas isso é ruim? É claro que sim! Apesar de causar um impacto inicial interessante, ser um filme extremamente triste e deixar uma certa dor ao final, Benjamin Button é mais do mesmo, feito exatamente para o lugar que está ocupando. No entanto, isso já era previsto, nada de novo, como sempre.
Baseada em conto de F. Scott Fitzgerald, a linha da história segue a revelação de Daisy (Cate Blanchett) sobre Benjamin Button no exato momento em que o furacão Katrina atinge o sul dos Estados Unidos. Toda narrada em flashbacks, o ar sulista do país é, novamente, o palco de uma história fantástica, estranha e singular. Mas, desta vez, o Alabama de Gump é substituído pela Louisiana e pelas ruas de New Orleans, recheadas de blues e jazz. Button é abandonado pelo pai logo após seu nascimento. Acompanhamos os acontecimentos através de um diário do próprio Button, lido pela filha de Daisy, Caroline (Julia Ormond). Logo após o nascimento, Benjamin Button é abandonado pelo pai na porta de um asilo e, em seguida, adotado por Queenie (Taraji Henson), que o acolhe como um filho. Nascido no dia em que a Primeira Guerra acabou, Benjamin Button tem todas as características de um velho e rejuvenesce durante o curso de sua vida em uma jornada única, diferente de qualquer homem. É nos acontecimentos de toda a sua vida e nos seus encontros e desencontros com Daisy, seu grande amor, que acompanhamos esta história sobre o tempo.
Nada pode ser mais importante neste filme do que o tempo. Este é, em todos os níveis, a maior luta desencadeada pelo homem, e sempre sem sucesso. Talvez o mais interessante de Benjamin Button esteja no relógio que anda para trás, construído por um homem para que seu filho e muitos outros garotos pudessem voltar da guerra, sãos e salvos. Esta é uma das melhores cenas do filme, habitada pela metáfora da volta ao passado com a intenção de se consertar um grande erro ou uma grande tragédia. Ao mesmo tempo, existe a analogia com o beija-flor, um pássaro que bate suas asas mais de 50 vezes por segundo e que pode também voar para trás ou parar no ar. Esses dois pontos de história juntam-se ao próprio Benjamin que pode viver sua vida ao contrário. Mais do que isso, o beija-flor pode estar aqui relacionado com o fato de se olhar para o passado e, de certa forma, é assim que a história é contada. Está também relacionado com outros personagens, sugerindo que, de alguma forma, Benjamin não era o único com uma história fantástica. Tudo isso temporizado pelo relógio e seus ponteiros movendo-se de forma anti-horária.
David Fincher, finalmente, é reconhecido pela sua boa direção e até concorre ao Oscar, mas, é claro que isso não significa muito, já que este não é seu melhor filme. Outras obras vieram antes, mais originais, menos pretensiosas e que não caíram tanto nas graças da Academia quanto as 13 indicações de Benjamin. Há rumores de que o filme pode sair do Teatro Kodak de mãos abanando ou então ser “rebaixado” às categorias técnicas. Não é de se duvidar que, em tempos de crise, até a Índia seja uma escolha calculada para Hollywood encontrar uma saída. Para se ter uma idéia do buraco Hollywoodiano, este foi o ano em que a média de bilheteria dos indicados a melhor filme atingiu seu ponto mais baixo e também, até o dia das indicações, Benjamin Button corria sério risco de não conseguir pagar seu investimento absurdo de aproximadamente US$ 150 milhões.
Definitivamente, 2008 não foi um ano de grandes filmes, e se Benjamin Button é o melhor que se produziu, então a coisa é mais séria do que se pensava. Podem dizer que é fantástico, que é lindo e todo o resto da cartilha, mas Benjamin Button apenas oferece uma história irresistível, pontuada pela impossibilidade e que desde que o mundo era quadrado costuma perturbar o homem. Fora isso, Cate Blanchett está muito bem, como sempre, Brad Pitt estaria melhor com os Irmãos Coen e a fotografia é extremamente burocrática. Sem mais.
O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008)
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji Henson, Julia Ormond, Jared Harris, Tilda Swinton
Duração: 166 min.
www.benjaminbutton.com/
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