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Sou Cuba

Fevereiro 3, 2009

soy-cuba-3Lançado em 1964, Sou Cuba possui uma história muito maior do que o próprio filme. Está diretamente ligado com a propaganda socialista promovida pelo governo de Fidel Castro, poucos anos depois de subir ao poder. Quando a ditadura de Fulgencio Batista é derrubada, em meados de 1961 uma crise diplomática leva os Estados Unidos a determinar bloqueio comercial à ilha. Recusada pelo Tio Sam, a ilha foi admitida pelos soviéticos. A antiga União Soviética, além de abrigar Cuba dentro de sua estratégia de propagação do socialismo internacional, enviou um grupo de jovens cineastas e intelectuais para a ilha, na esperança de rodar uma co-produção. Neste momento, Fidel já havia fundado o ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Indústria Cinematográficos), e foi, pelas mãos de Mikhail Kalatozov na direção, Yevgeni Yevtushenko no roteiro e Sergei Urusevsky na fotografia, que nasceria, dois anos depois, a mais fantástica propaganda e odisséia cinematográfica de que o cinema cubano teria notícias. Nascia também um fracasso estrondoso, destinado a ser redescoberto e reavaliado quase 30 anos depois.

A história de Sou Cuba é dividida em quatro segmentos, cada um com personagens distintos, mas, de alguma forma todos representam ideais socialistas de importante apelo para justificar a revolução. A primeira história é de Maria (Luz María Collazo), humilde como a maioria da grande massa cubana, envergonha-se quando um marido em potencial descobre que, na verdade, Maria é uma prostituta. No segundo segmento, Pedro (José Gallardo), um fazendeiro já idoso e preocupado com o futuro dos filhos, perde os sentidos quando descobre que suas terras lhe foram roubadas e queima toda a sua lavoura. Na terceira história, Enrique (Raúl Garcia), um estudante universitário enfrenta as hordas de soldados ao ver seus camaradas revolucionários morrerem nas ruas. No último ato, Mariano (Salvador Wood), pacato morador das colinas tem de defender sua mulher e filhos quando o ditador Batista bombardeia as montanhas. Posteriormente, Mariano se junta à guerrilha socialista para lutar por justiça.

Todas estas histórias não teriam absoluta importância se não tivessem sido escritas para reafirmar a necessidade da revolução e da mudança de poder. Mas, mais importante do que as histórias em si é a forma como elas foram feitas. Se fosse necessário resumir o filme em poucas palavras, diria que se trata de um exercício exaustivo de planos-seqüência e fotografia. Destaque para uma das primeiras cenas do filme, rodada na cobertura de um hotel, onde a câmera termina dentro de uma piscina depois de mostrar todos os tipos presentes no local, incluindo a banda de música ao vivo. Além disso, a seqüência do cortejo fúnebre e passeata pelos estudantes mortos em confronto com a polícia é de uma engenharia poucas vezes vista na história do cinema. Tudo isso filmado com uma película exclusiva, utilizada pela agência espacial russa que adicionava tonalidades e prata e aumentava o contraste de forma significante para conseguir o tipo de imagem que Kalatozov e Urusevsky queriam imprimir no negativo.

Depois de exaustivas filmagens e um processo de feitura controverso, que se alongou por cerca de dois anos, a estréia do filme em Cuba e na antiga União Soviética foi praticamente um desastre. Ambas as platéias não gostaram do resultado e o filme foi retirado de cartaz com apenas uma semana de exibições. Com duas horas e vinte minutos de projeção, Sou Cuba acabou esquecido por anos. Quando a União Soviética veio à lona, o filme era virtualmente desconhecido. Depois de algumas exibições em festivais, principalmente em Telluride, a obra caiu nas graças de ninguém menos que Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, que trataram de trazê-lo para a América e fazer seu relançamento já na metade da década de 1990.

Recentemente o brasileiro Vicente Ferraz rodou o documentário Soy Cuba – O Mamute Siberiano, onde narra sua jornada em busca do filme perdido, interpretando-o como um fóssil enterrado no gelo russo e na floresta tropical cubana. Ferraz visitou equipe técnica e elenco da produção, averiguando toda a atmosfera nostálgica, excitante e ao mesmo tempo amarga da construção e derrocada do sonho socialista, e que está presente, de forma determinante do filme de Kalatozov. Este, aliás, que morreu inconformado com o fracasso do filme, como relata Ferraz em seu documentário. Mal sabia Kalatozov, que estava compondo uma obra sem precedentes no cinema mundial. Uma página da história cubana que teve de se tornar um fóssil para depois ser redescoberto.

soy-cuba-posterSou Cuba (Soy Cuba. União Soviética, Cuba, 1964)
Direção: Mikhail Kalatozov
Roteiro: Enrique Pineda Barnet, Yevgeni Yevtushenko
Elenco: Salvador Wood, Sergio Corrieri, José Gallardo, Raúl Garcia, Luz María Collazo, Celia Rodriguez
Duração: 141 min.
www.imdb.com/title/tt0058604/

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