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Arca Russa

Novembro 30, 2008

russian-ark-2Três séculos de História da Arte distribuídos em 35 salas do museu Hermitage de São Petersburgo. Arca Russa, do diretor Aleksandr Sokurov, abusa do fragmento como ferramenta para contar sua história ao enquadrar telas de diferentes épocas. Mas, também transforma o fragmento cinematográfico, o plano, em uma unidade viva ao realizar um plano-seqüência único, que compreende os 97 minutos de filme. Sem cortes, apenas recortes, do quadro cinematográfico e das várias molduras presentes no museu. Fragmento também é sua filmagem: apenas em um dia, especificamente 23 de dezembro de 2001. Datada é apenas a produção, pois o conteúdo transita entre os séculos XVIII e XVI.

A subjetividade é assumida em um dos personagens quando a câmera se posiciona como um cineasta presente no museu em meados do século XVIII. A única pessoa que consegue vê-lo é um diplomata francês do século XIX, uma figura obscura, assustadora e questionadora da motivação artística na composição de um museu. É ele quem dá inicio a uma jornada pela história da arte sem precedentes no cinema. Ele apresenta ao cineasta (à câmera, ao espectador) a suntuosidade da era dos czares russos e a opulência dos bailes. Por vezes, tudo submetido às influências da luz e das cores. Quando se quer falar de uma época de trevas, se apresentam cores neutras, a intensidade da luz parece jogar para uma masmorra e o silêncio é esmagador. Quando se quer deixar claro a imponência do império russo, o que se joga na cena é a luz em profusão, as cores desnorteantes e a música hipnótica que conduz os magníficos bailes.

Além da arte em si, personagens importantes da história russa transitam pelos corredores e pelas salas, espalhando memórias de suas vidas. Fazem-se presentes Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, Alexandra, Nicolau e o constante estranhamento que parece querer transformar o passado não em discurso, mas em um presente ininterrupto: em grande parte pela eleição do museu como ser vivo; como um navio que abriga tanta diversidade uma ao lado da outra, que cria uma identidade própria.

Nada acontece por acaso para o cineasta. Sokurov sabe bem o que faz e tudo o que coloca na tela tem seu sentido: Sokurov é um compositor e esta é sua arte. É assustador, no entanto, como, em diversas passagens, seus personagens parecem fantasmas, aterrorizando personagens secundários igualmente tenebrosos. Todos envoltos em névoas de memória de salas que guardam obras particulares ou transtornados pela multiplicidade de fragmentos artísticos presentes dentro deste fragmento maior que é o colossal Hermitage.

Mas, engana-se quem pensa que Arca Russa é um filme produzido em apenas um dia. Foram 15 anos de gestação para a idéia principal e aproximadamente 7 meses de preparação para a filmagem de um único plano, com mais de uma hora e meia de duração, da qual participam mais de 4 mil figurantes. Se a idéia de Sokurov era reduzir a feitura do filme à sua porção que tivesse o mínimo de repetição possível, este número atende por “quatro”. Foram três planos abortados por dificuldades técnicas; no quarto take Sokurov capturou o momento artístico isolado no tempo. Já para nós, bons fruidores, nos resta exercitar a repetição da observação e ter consciência de que não estamos vendo a “arte”, mas um produto artístico da indústria cultural. E um belo produto.

russianark_2002_posterArca Russa (Russkiy Kovcheg. Rússia/Alemanha, 2002)
Direção: Aleksandr Sokurov
Roteiro: Svetlana Proskurina, Boris Khaimsky, Anatoli Nikiforov, Aleksandr Sokurov
Elenco: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy
Duração: 97 min.
www.imdb.com/title/tt0318034/

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