Três séculos de História da Arte distribuídos em 35 salas do museu Hermitage de São Petersburgo. Arca Russa, do diretor Aleksandr Sokurov, abusa do fragmento como ferramenta para contar sua história ao enquadrar telas de diferentes épocas. Mas, também transforma o fragmento cinematográfico, o plano, em uma unidade viva ao realizar um plano-seqüência único, que compreende os 97 minutos de filme. Sem cortes, apenas recortes, do quadro cinematográfico e das várias molduras presentes no museu. Fragmento também é sua filmagem: apenas em um dia, especificamente 23 de dezembro de 2001. Datada é apenas a produção, pois o conteúdo transita entre os séculos XVIII e XVI.
A subjetividade é assumida em um dos personagens quando a câmera se posiciona como um cineasta presente no museu em meados do século XVIII. A única pessoa que consegue vê-lo é um diplomata francês do século XIX, uma figura obscura, assustadora e questionadora da motivação artística na composição de um museu. É ele quem dá inicio a uma jornada pela história da arte sem precedentes no cinema. Ele apresenta ao cineasta (à câmera, ao espectador) a suntuosidade da era dos czares russos e a opulência dos bailes. Por vezes, tudo submetido às influências da luz e das cores. Quando se quer falar de uma época de trevas, se apresentam cores neutras, a intensidade da luz parece jogar para uma masmorra e o silêncio é esmagador. Quando se quer deixar claro a imponência do império russo, o que se joga na cena é a luz em profusão, as cores desnorteantes e a música hipnótica que conduz os magníficos bailes.
Além da arte em si, personagens importantes da história russa transitam pelos corredores e pelas salas, espalhando memórias de suas vidas. Fazem-se presentes Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, Alexandra, Nicolau e o constante estranhamento que parece querer transformar o passado não em discurso, mas em um presente ininterrupto: em grande parte pela eleição do museu como ser vivo; como um navio que abriga tanta diversidade uma ao lado da outra, que cria uma identidade própria.
Nada acontece por acaso para o cineasta. Sokurov sabe bem o que faz e tudo o que coloca na tela tem seu sentido: Sokurov é um compositor e esta é sua arte. É assustador, no entanto, como, em diversas passagens, seus personagens parecem fantasmas, aterrorizando personagens secundários igualmente tenebrosos. Todos envoltos em névoas de memória de salas que guardam obras particulares ou transtornados pela multiplicidade de fragmentos artísticos presentes dentro deste fragmento maior que é o colossal Hermitage.
Mas, engana-se quem pensa que Arca Russa é um filme produzido em apenas um dia. Foram 15 anos de gestação para a idéia principal e aproximadamente 7 meses de preparação para a filmagem de um único plano, com mais de uma hora e meia de duração, da qual participam mais de 4 mil figurantes. Se a idéia de Sokurov era reduzir a feitura do filme à sua porção que tivesse o mínimo de repetição possível, este número atende por “quatro”. Foram três planos abortados por dificuldades técnicas; no quarto take Sokurov capturou o momento artístico isolado no tempo. Já para nós, bons fruidores, nos resta exercitar a repetição da observação e ter consciência de que não estamos vendo a “arte”, mas um produto artístico da indústria cultural. E um belo produto.
Arca Russa (Russkiy Kovcheg. Rússia/Alemanha, 2002)
Direção: Aleksandr Sokurov
Roteiro: Svetlana Proskurina, Boris Khaimsky, Anatoli Nikiforov, Aleksandr Sokurov
Elenco: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy
Duração: 97 min. www.imdb.com/title/tt0318034/
Vira e mexe aparece um link de entrada novo na página inicial de administração quando abro a edição do blog. Hoje, encontrei um nome estrangeiro, mais especificamente do Row Three, do qual recebo feeds no google reader regularmente, apenas um dos “trocentos” que assino.
O fato acontece porque, no meu último post, mencionei o rating fornecido pelo site para o filme Twilight. Eles viram que linkei o site e resolveram agradecer. Assim, aparece lá “o Row Three ajuda também seus amigos espanhóis”. Tudo bem, nada de mais, afinal, quem somos nós aqui embaixo além do país da mata amazônica, do futebol e das praias.
Quando estava viajando, americanos me perguntavam como lidamos aqui com as invasões de animais selvagens nas cidades. Disse que tínhamos um bom plano de turismo, e que geralmente eles ficam em hotéis e gastam altas somas com o carnaval, além de serem assaltados constantemente.
Mas, tive que mandar uma reclamação-resposta-choradeira! Enfim, manifestação, afinal, o Brasil não fala espanhol. E, diga-se de passagem, o português é uma língua difícil, merece respeito, deve ser por isso que não se dão ao trabalho!
Segue na imagem abaixo: no comment 8, a derradeira frase e no comment 11, a minha reação!
Nem bem estreou nos cinemas americanos e a nova sensação vampiresca-teen, Twilight, já desperta as impressões nada animadoras (para os produtores, pelo menos!).
As primeiras avaliações dão conta de que, apesar de estar seguindo firme para um faturamento em torno de $65 milhões de dólares em seu primeiro final de semana, talvez mais, isso não quer dizer que o filme ganhe boas críticas. Na verdade, recepção mediana, se não negativa, paira pela grande rede.
Abaixo uma listinha de alguns blogs e suas respectivas notas para o filme:
O Cinematical considerou o filme “um conto de fadas moderno com muita ação e um forte apelo romântico”. Se isso é bom ou ruim, não está claro.
O Hollywood Reporter disse que Twilight “deve ser reconhecido como o mais fraco da franquia, quando ela estiver toda pronta”. Com certeza, existe algum vidente na redação do THR.
Twilight só chega no Brasil em dezembro, até lá, há tempo de sobra para ler todos os reviews e baixar o filme em torrent. Já o meu voto vai para Let The Right One In, filme sueco espetacular e uma das mais belas histórias ja contadas sobre a adolescência. E, é claro, um filme sobre vampiros, assustador. Se quer saber mais, google it.
Ainda são incertas as chances de The Dark Knight para qualquer uma das categorias da academia. Acho que as mais fortes são as de diretor e roteiro. Recentemente a trilha sonora composta por Hanz Zimmer e James Newton Howard foi desqualificada por conter menos de 70% de colaboração dos dois compositores com outros 3 músicos que assinam o trabalho.
E, de quebra, ainda existe a incógnita Heath Ledger, que entraria mais fácil como ator suporte e seria um protagonista concorrendo como coadjuvante, ou seja, extremamente forte. Mas, ninguém realmente sabe se isso irá acontecer, pois se trata de um prêmio póstumo, muito difícil de se concretizar. Mas, que na verdade, seria mais do que merecido, pela atuação espetacular do Joker.
No entanto, previsões e palpites é o que não falta (inclusive os meus), e eles dão conta que The Dark Knight pode realmente concorrer como melhor filme. Principalmente na blogosfera, existe uma corrente à favor do longa de Christopher Nolan e parece querer usar o poder da força para fazer a academia, que pelo estilo histórico, nem cogitaria a indicação de um filme como TDK.
De certo só existe uma coisa: a América é realmente a terra da esperança, principalmente depois da vitória do tio Obama. E, ainda mais em Hollywood, a grande classe apoiadora do candidato, tudo pode acontecer. Afinal, corre na boca pequena que lá o sistema de cotas funciona até para a presidência.
O Oscar 2009 não está nem perto, mas as listas já começaram a sair. Algo me diz que vamos ouvir falar muito, mas muito mesmo, destes trailers abaixo.
No entanto, algumas coisas podem acontecer até fevereiro. Benjamin Button pode ser um fiasco; Australia pode ser uma babaquice de 130 milhões de dólares, algo no estilo Pearl Harbour; Revolutionary Road pode ser uma estrada sem saída com o mesmo assunto de Beleza Americana. Por outro lado, dificilmente Sean Penn deixará de ser notado; Mickey Rourke pode, enfim, estar voltando dos mortos; Stephen Daldry pode surpreender e Danny Boyle pode se dar bem em um dos filmes mais bem availados do ano. Frost/Nixon tem cara de filme político (!) e Doubt tem cara de filme com a Meryl Streep (!!).
Isso que eu nem mencionei o Clint Eastwood, que pode pegar o lugar de qualquer um desses simplesmente por ser… você sabe, o Clint, afinal de contas! E, que diga-se de passagem, acho um absurdo. Menina de Ouro foi uma piada, em compensação fiquei desconcertado com Sobre Meninos e Lobos. Mas, política é política e Clint é mestre no corpo a corpo, deixa o Obama no chinelo.
Lembrando que a disposição não tem nada a ver com a preferência dos acadêmicos, nem com a minha… tudo não passa de gossip… e das grandes!
Putz, no fim das contas, um post de trailers virou também um post de … posters! Enjoy!
Em mais uma edição caprichada, a Lume Filmes traz para DVD esta produção franco-canadense de 1992 sob a direção de Jean-Claude Lauzon. O diretor, morto precocemente em um acidente de avião no ano de 1997, deixou apenas dois longas e um curta-metragem, entre eles este Léolo. A produção foi indicada para a Palma de Ouro em Cannes e recebeu outros prêmios importantes nos festivais de Toronto e Vancouver. Até hoje é considerado grande representante do cinema canadense e da província de Quebec na década de 1990. Deste local saiu também Denys Arcand, responsável por filmes como o Declínio do Império Americano (1986) e As Invasões Bárbaras (2003).
A história de Léolo gira em torno de um garoto de 12 anos, Léo (Maxime Collin) que refuta a idéia de ser canadense e prefere que todos o chamem de Léolo. Para ele, por coincidência do destino, seu pai é italiano e através de um acidente inusitado com tomates sua mãe foi escolhida ao acaso, o que fez com que o garoto nascesse no lugar errado. Léolo passa a maioria de seu tempo lendo o livro L’avalée des Avalés, de Réjean Dumarche, também de origem franco-canadense. E é deste livro em particular, que o garoto tira toda a inspiração para escrever as mais escatológicas poesias e as histórias mais surrealistas dos constantes sonhos nos quais se refugia da vida.
Grande parte do tédio que Léolo sente se deve à família. Segundo o garoto, um traço de loucura e esquizofrenia foi passada geneticamente pelo seu avô, pai de sua mãe, para todos os filhos e netos. Desta maneira, Léolo encontra um material espetacular para suas histórias nos tipos encarnados pelos familiares. Seu pai nutre uma obsessão pelo bom funcionamento dos intestinos de toda a família e faz todos os relativos tomarem doses diárias de laxante. O irmão halterofilista não consegue disfarçar sua constante fraqueza interior e o medo das pessoas em geral. Suas irmãs parecem não ter papel algum dentro de casa a não ser reforçar um ambiente assolado pela loucura.
Apesar de ver a mãe como a única criatura consciente, terna e amável que vive ao seu redor, Léolo se sente cada vez mais imerso neste mundo de insanidade. Ela é reforçada pelas visitas à enfermaria psiquiátrica que boa parte da família começa a freqüentar. Depois, o garoto tenta matar o avô, o culpado pelo fracasso da família, e fica a um passo de perder os sentidos de vez. Dividido entre a paixão platônica por uma vizinha e a descoberta do próprio corpo, o garoto encontra nos sonhos e na imaginação uma fuga deste aparente buraco negro. Como ele próprio diz: “Porque eu sonho, eu não sou”. Assim, Léolo abre mão de sua liberdade física e começa a criar para si um mundo interior, que provavelmente está muito próximo do que Réjean Dumarche diz em seu livro: “A vida não se passa na terra, mas na minha cabeça”.
O filme demonstra ser uma preciosidade rara no cinema, com uma fotografia estupenda e uma narrativa que compõe um retrato de infância baseado em cheiros, timbres, gostos e sensações. O flerte com o bizarro, com o lirismo e com a poesia, faz com que a transição para as memórias e lembranças seja ainda mais fantástica. A música tem papel fundamental aqui, como que por livre associação, a cabeça viaja através do som para os lugares mais longínquos, onde um fiapo de criança e da imaginação ainda resiste, mesmo que um tanto empoeirado.
Léolo (Canadá, 1992)
Direção: Jean-Claude Lauzon
Roteiro: Jean-Claude Lauzon
Elenco: Maxime Collin, Ginette Reno, Denys Arcand
Duração: 107 min. www.imdb.com/title/tt0104782/
Depois de três semanas embaladas pela vingança de Chan-wook Park contra aqueles que teimam em ver seus filmes, hoje o tema é a clássica “família disfuncional”. Não é por coincidência que a história de A Lula e A Baleia vem dos Estados Unidos e, mais especificamente, dos anos 80. Esta década específica marca o começo do declínio do império americano, que já dava indícios de saturação naquela época. O desmantelamento da família é apenas o ponto de partida deste drama irônico de Noah Baumbach, que buscou na sua própria infância material para contar a história de uma família de pseudo-intelectuais do Brooklyn.
Bernard (Jeff Daniels) é o patriarca, escritor decadente que não suporta pessoas que não gostam de livros ou filmes. Começa a cambalear quando sua esposa Joan (Laura Linney) começa a ter um caso fora do casamento e, ao mesmo tempo, consegue publicar sua primeira história na badaladíssima New Yorker. Bernard se vangloria para os filhos Walt (Jesse Eisenberg) e Frank (Owen Kline, filho do ator Kevin Kline, ótimo no papel), que a mãe dos meninos só começou a escrever influenciada por ele, e que dele também deveria ser todo o reconhecimento pelo sucesso de Joan. Walt partilha das mesmas opiniões do pai e Frank prefere ficar do lado da mãe.
Não é surpresa quando o casal anuncia às crianças que decidiram, depois de muitas brigas, pelo caminho do divórcio. De cena dramática, a seqüência assume contornos sarcásticos quando o garoto mais velho pergunta com quem vai ficar o gato. Claramente, isso é o que menos importa na história, mas o diretor faz aqui uma referência ao constante esvaziamento da família americana do ponto de vista dos filhos. A resposta vem tão ácida quanto a pergunta: “Droga! Não discutimos o gato!”. Continuando a linha da ironia o casal começa e lidar com outras perguntas do tipo: como dividir de maneira igual os sete dias da semana em uma guarda conjunta; como reaver, sem guerras, os livros que cada um pôs na estante; como fazer com que as crianças tenham duas casas iguais; quem deve pagar a escola, as aulas de tênis, as roupas de inverno.
A separação é a deixa para o comportamento estranho de Walt e Frank começar. O primeiro briga com a namorada porque quer “algo melhor”. Depois, diz que a música Hey You, do Pink Floyd, escrita por Roger Waters, é uma composição sua e a apresenta em um festival na escola. Frank, o mais novo, dá início ao seu vício no álcool e começa a ter diversas fantasias sexuais. Entre elas, a vontade incontrolável de espalhar seus fluídos corporais pela biblioteca e pelos armários da escola. Aliás, não apenas as crianças, mas os adultos também revelam suas fantasias: Bernard se apaixona por uma das alunas, Lili (Anna Paquim), aspirante à escritora, ousada e praticamente um símbolo sexual ambulante que ainda consegue seduzir Walt. Joan aproveita a liberdade para consolidar sua carreira de escritora e inicia um romance com Ivan (William Baldwin), professor de tênis de Frank.
Aos poucos, as máscaras de todos começam a cair. Dessa forma, os filhos descobrem os constantes casos extraconjugais da mãe, que possuem um complexo histórico de vários anos. Percebem também que o pai é psicologicamente dominador, egocêntrico e medíocre, racionaliza absurdamente toda sua vida, além de ser um pai praticamente ausente do convívio com os filhos. Descobrem também que o gato talvez seja o único ser normal nesta família, pois foge para a rua, recusando a casa destruída. É quando as duas partes estão bem separadas que a questão primordial vem à tona. Quem renderia um romance melhor: a lula ou a baleia? O pai ou a mãe? Na história da literatura é notável que baleias sempre rendem narrativas mais marcantes e talvez esteja aí representado o aspecto pegajoso do pai, com seus tentáculos que sugam a livre iniciativa e o espírito autoral de todos.
A linguagem com a qual vemos tudo isso é muito simples. Baumbach apenas faz com que a câmera seja um terceiro filho do casal, presenciando cenas dentro do carro, nos jogos de tênis, nas brigas em casa: presenciando a aparente falta de sincronia da família. No entanto, para saber onde o título estranho entra efetivamente na história, é preciso ver o filme até o final, quando são fixados exemplarmente os papéis de pai e mãe na vida dos meninos. Até lá, este pequeno conto sobre o amadurecimento frente à dificuldade e à mudança, merecia destino melhor do que uma Sessão de Gala dublada na madrugada da Globo.
A Lula e a Baleia (The squid and the whale, 2005, EUA)
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Owen Kline, Jesse Eisenberg, Anna Paquin, William Baldwin
Duração: 81 min. www.imdb.com/title/tt0367089/
Um dos melhores diretores do oriente, Chan-wook Park teve sua Trilogia da Vingança lançada no Brasil fora da ordem cronológica, de modo que, quando Oldboy chegou às locadoras, ainda não existiam cópias de Mr. Vingança , o início da trilogia, disponíveis. Apenas recentemente tivemos a oportunidade de conferir além do começo, também o final de uma das melhores sagas construídas no cinema contemporâneo, Lady Vingança, que encerra a jornada, sob a ótica feminina da revanche.
Sem os mesmos personagens, com histórias diversas, trazendo atores de várias idades e revelando vários pontos de vista sobre o mesmo assunto, a vingança, Park conseguiu escrever para si um nome no ocidente. Sua maneira brutal de contar, mostrar e, o mais importante, a maneira como faz isso, com montagem eficiente, enquadramentos ousados e sugestões apropriadas, cria uma assinatura inequívoca de sua cinematografia.
Neste especial, os três filmes aparecem comentados, porém não assistidos em ordem. Oldboy foi o primeiro, depois um retorno à Mr. Vingança, e o fim com Lady Vingança, que considero o melhor, ao mesmo tempo o mais sutil, mais psicológico e mais vigoroso dos três. Deixando claro que esta escolha não acontece por deficiência dos anteriores, mas simplesmente porque se trata de um filme mais completo, talvez por ser a conclusão.
Outra característica admirável dos três filmes é a ironia, sempre presente, nos momentos mais inusitados, e conferindo uma dualidade espetacular às situações mais aterrorizantes. De cara, esta seqüência de filmes contém algumas características comuns: a perda, o cárcere, a vingança e a catarse. Desde já, fica o aguardo dos outros filmes de Park: I’m a Cyborg, But That’s Ok, de 2006 e Thirst , com estréia prevista para 2009, onde Park aterrisa na área dos vampiros e que pelas primeiras fotos, promete.
Enquanto isso, é tempo de procurar filmes anteriores do cineasta e esperar pelo que vem por aí. Enjoy!
A principal diferença de Lady Vingança em relação aos seus antecessores é o ponto de vista feminino. Para encerrar sua trilogia da vingança, Chan-wook Park liberta a alma feminina na forma de um anjo caído, uma condenada. Ao mesmo tempo em que ajuda uns é uma bruxa para outros, uma exterminadora. Essa dualidade, que entrega horror e humor ao mesmo tempo é uma das grandes qualidades dos três filmes e aqui, encontra a voz de uma mulher traída, que além da vingança, procura acima de tudo a redenção dos seus pecados.
Lee Geum-ja (Lee Yeong-ae) acaba de sair da prisão onde passou os últimos 13 anos presa como cúmplice do seqüestro de um garoto de 7 anos. Traída pelo amante Mr. Baek (Choi Min-sik), foi apontada como a assassina do garoto e, depois de passar todos estes anos planejando sua vingança, finalmente tem a chance de colocá-la em prática. Mas, primeiro Lee precisa reconstruir sua vida. Ela começa a trabalhar em uma padaria, reúne-se com sua filha adotada por australianos e parte atrás de Mr. Baek, verdadeiro assassino do garoto.
Como nos outros filmes, descobrimos a história de Lee aos poucos, sempre em uma narrativa não linear. Nas idas e vindas do roteiro conhecemos as companheiras de cárcere de Lee e entendemos alguns dos motivos que a fizeram mudar radicalmente sua personalidade na cadeia. O amadurecimento psicológico violento é requisito básico para a feitura do complexo plano de vingança que Lee tem em mente. Assim, quando sai da cadeia, ela não aparenta emoções variadas. Conserva sempre uma expressão séria beirando à melancolia e no rosto preserva um traço marcante nos olhos desenhado com sobra vermelha: a aridez da consciência no rosto branco contrasta com o furacão vingativo cor de sangue no olhar.
Chan-wook Park continua um mestre dos enquadramentos e com uma diversidade de planos incrível, consegue compor uma montagem espetacular. A variedade de cores aumenta drasticamente e vai do branco da neve, ao escuro da noite, passando é claro por muitos tons de vermelho. A violência gráfica aqui é bem menor do que nos outros filmes, mas, ela é substituída por uma violência psicológica incrível, tanto para personagens quanto para quem assiste. Apesar de ser ainda mais fragmentado do que Oldboy, Lady Vingança é extremamente contundente no que diz respeito à redenção.
Assim, quando chega ao final de sua jornada, Lee encontra-se vingada, porém sem o perdão que procurava para os seus pecados. Se, quando saiu da prisão ela sabia exatamente para onde ir, pois a vingança era a razão de sua liberdade, agora ela se encontra estagnada. Chega ao final provando de uma torta sem cor, sem ornamento, sem gosto e sem textura. Ao contrário das saborosas tortas que fazia na padaria onde trabalhava, a vingança de Lee serviu apenas para lhe deixar um gosto amargo e gelado como sua alma, resultado de um caminho doloroso pelo subsolo da mente humana.
Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjassi, 2005, Coréia do Sul)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-gyeong Jeong, Chan-wook Park
Elenco: Yeong-ae Lee, Min-sik Choi
Duração: 112 min. www.imdb.com/title/tt0451094/