
Felicidade
Agosto 1, 2008Sabe aquele sentimento do tipo “por que não fiz isso antes”. Foi exatamente assim que me senti após assistir Felicidade, de Todd Solondz, lançado no distante 1998. O filme fez alarde em festivais independentes e até ganhou alguns prêmios, mas quem disse que há dez anos atrás eu sabia da existência de cinema independente? Como sempre, a base cinematográfica de qualquer adolescente é o cinema mais comercial, filmes mais atrativos para a idade, mais movimentados, para competir com os hormônios. Engraçado como as coisas mudam, hoje Felicidade está na minha lista de melhores filmes dos anos 90 e sério candidato a figurar entre os melhores que já vi. O título sugere uma coisa simples, talvez, mas é exatamente na falta da tal felicidade que está centrada a lente de Solondz. A questão é básica: o que é felicidade para cada uma dessas pessoas? Mas, atenção, para não acabar com a sua felicidade, se você ainda não viu o filme, pare por aqui.
Começamos com um casal em um restaurante, Joy Jordan (Jane Adams) escuta poucas e boas após terminar o relacionamento com Andy (Jon Lovitz) Em seguida conhecemos Allen (Philip Seymour Hoffman), um acara de meia idade com taras por sexo via telefone que não dá a mínima para sua vizinha gordinha Kristina (Camryn Manheim), mas é apaixonado pela outra vizinha, a escritora Helen (Lara Flynn Boyle). Ele se trata com o Dr. Bill Maplewood (Dylan Baker), um pai de família pedófilo, acima de qualquer suspeita, casado com Trish (Cynthia Stevenson). Trish está preocupada com a separação dos pais Lenny (Ben Gazzara) e Mona (Louise Lasser), com a vida das irmãs Joy e Helen, mas, não dá muita atenção ao filho de 11 anos Billy (Rufus Read), cheio de dúvidas sobre sexo.
Agora, tudo isso se passa com figuras comuns da vida americana, em uma história trazida às telas pouco tempo antes de Beleza Americana. A vida no subúrbio era um assunto caindo de maduro e Solondz o traduz como um filme lento, com diálogos crus e verdadeiros que dez anos depois ainda tem a mesma força e a mesma posição. O que parece claro é que, não importa o tipo de vida que se leve, a felicidade é sempre subjetiva e está sujeita a uma série de fatores que, combinados, produzem este tal sentimento difícil de ser filmado. Solondz consegue se fazer entender pela constante ironia e sutileza que utiliza até nas cenas mais difíceis. Existe sempre uma imagem ou uma palavra para deixar a contradição e o sarcasmo no ar. O filme teve certo problema de distribuição por tratar de assuntos polêmicos, o que não impediu de ser relativamente cultuado como os outros filmes do diretor.
Talvez a história mais trágica seja a de Bill Maplewood, pedófilo que abusa sexualmente de dois colegas de escola do filho Billy. Ao longo do filme seu filho insiste nas conversas sobre sua intimidade com perguntas que vão da simples curiosidade à terrível incerteza da idade. As respostas do pai são sempre muito bem compostas, sem o menor constrangimento, e sempre carregadas com um interesse velado: “Quer que eu te mostre?”. Para comprovar que existe uma barreira separando a relações de pedofilia e paternidade, em uma das últimas cenas do filme Billy confronta o pai e pergunta o que ele fez e como se sentiu, e se faria de novo com seu próprio filho. Esta cena (no video abaixo), talvez seja a que aborda a pedofilia com a maior sinceridade e também com a maior tensão da história do cinema. É também uma das cenas mais fortes que já vi, com certeza deve ter sido muito difícil fazê-la, pelo assunto que continha, pela atmosfera que criou e, por ser o atestado de desconstrução da família, provando que nem sempre essa instituição é sinônimo de alegria ou felicidade, principalmente na América.
No entanto, ao chegar ao final de todas as histórias, um almoço se desenrola na mesa da sala da família Jordan, agora na Flórida. O pai e a mãe não dão sinal de mudança, as três irmãs continuam um tanto quanto perdidas. Claramente, para Solondz, a felicidade pode ser de vários tipos e depende também da idade e do universo que ela cria para cada um. Para ele o tempo pode ser o agente que, mais cedo ou mais tarde, vai ativar a mudança de um tipo de vida para outra. Apenas o pequeno Billy parece se encontrar, na sacada, de olho na piscina ele consegue o que vinha tentando desde o inicio do filme. Chega na sala, realmente feliz, e dispara a boa notícia: “Gozei”. Bons tempos aqueles, a felicidade realmente existia aos 11 anos.
Felicidade (Happiness. 1998, EUA)
Direção: Todd Solondz
Roteiro: Todd Solondz
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Dylan Baker, Cynthia Stevenson, Lara Flynn Boyle, Jon Lovitz, Jane Adams, Ben Gazzara, Louise Lasser, Molly Shannon, Rufus Read
Duração: 131 min.
www.imdb.com/title/tt0147612
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