
Não Estou Lá
Julho 30, 2008
Hollywood sabe fazer bons filmes, quando quer. No terreno das biografias a indústria segue sempre algumas fórmulas batidas e burocráticas, mas, felizmente, não é isso que acontece em Não Estou Lá. Todd Haynes compõe um mosaico incrível sobre Bob Dylan a partir de acontecimentos significativos de um dos maiores cantores, se não o mais importante, da história do planeta. Diversos Dylans aparecem em cena, cada um com sua parcela de representação na vida de Robert Zimmerman. A exemplo do que fez em Velvet Goldmine, sobre o cantor David Bowie, o diretor volta seu interesse para a vida de uma personalidade que não resistia a mudanças camaleônicas regadas de incerteza.
Através de seis personagens temos a vida de uma pessoa, Bob Dyla, um expedicionário da música. Começamos com o Dylan menino, Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), ainda sem saber o rumo de sua música ensaia as primeiras trovas, carregando seu violão em um estojo carimbado com a frase “essa máquina mata facistas”. Em seguida, depois de se transformar no mais promissor cantor folk, o jovem Jack Rollins (Christian Bale) se converte ao cristianismo, apresentando-se como o Pastor Jack em uma pequena cidade do interior. Na mais original das passagens, Jude Quinn (Cate Blanchett, ótima) é um cantor no auge de sua carreira rejeitado pelos fãs por ter “se vendido” para a indústria. É nesta fase que Dylan encontra-se com os Beatles pela primeira vez em uma cena antológica. Um Dylan em inicio de carreira aparece na pele jovem revolucionário que diz ter o mesmo nome do poeta Arthur Rimbaud (Ben Whishaw). Evocando a vida familiar de Dylan, Robbie Clark (Heath Ledger) é um ator que interpreta Jack Rollins em um filme biográfico. Por fim, Billy the Kid (Richard Gere) é um Dylan mais velho em uma cidade fictícia do velho oeste.
O mais interessante é que algumas fases foram filmadas com outro tipo de filme, isso facilita o reforço das diferentes personalidades. Nos segmentos de Woody Guthrie, Robbie Clark e Billy the Kid o filme é normal em cores, 35mm. Enquanto a maioria segue a tradicional narrativa ficcional, o segmento que traz Jack Rollins foi filmado em 16mm em cores e encenado como um documentário, trazendo à cena figuras da vida do astro como Alice Fabian (Juliane Moore), interpretando uma versão de Joan Baez. Na fase de Jude Quinn todo o segmento é inundado pelo preto e branco, mesmo cenário que se torna mais granulado e contrastante para a versão de Arthur Rimbaud. Boa parte da noção sobre as fases de Bob Dylan e a atmosfera que cada uma produzia saiu das próprias letras e músicas utilizadas na trilha sonora do longa. De longe, uma trilha soberba, que além da música que dá título ao filme, executada pelo Sonic Youth, figura gente como Stephen Malkmus, Cat Power, Jeff Tweedy do Wilco, Yo La Tengo e Surfjan Stevens interpretando várias canções do “judeu”.
A sensação é Cate Blanchett que encarna a fase mais difícil e carregada de Dylan. Christian Bale não fica atrás, mas é no auge da carreira que o cantor parecia cada vez mais sufocado pelas próprias criações e dizia que por isso, pelo fato de ter criado algo, seria perseguido eternamente. Personagens, nomes, figuras estranhíssimas, comportamento cada vez mais inquieto e contraditório. Tudo isso tem o clímax nessa fase Jude Quinn, quando o maior gênio de sua época estava para entregar os pontos e sumir. Um de seus vários sumiços ao longo da história, bem próximos também de sua música, indissociáveis de sua pessoa.
Não Estou Lá (I’m Not There. 2007, EUA, Alemanha)
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes, Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Christian Bale, Heath Ledger, Ben Wishaw, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Michelle Williams, Julianne Moore, Charlotte Gainsbourg, Bruce Greenwood, David Cross
Duração: 135 min.
www.imnotthere-movie.com
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