
Diários de Motocicleta
Novembro 28, 2007
É importante que se diga, antes de qualquer coisa, que os acontecimentos que envolvem Che Guevara em Diários de Motocicleta, não lembram em quase nada a figura marxista, revolucionária e linha-dura como conta sua lenda. A pessoa retratada no filme de Walter Salles é Ernesto Guevara (Gael Garcia Bernal) um jovem estudante de medicina, que parte em uma viagem da Argentina à Venezuela em 1952, pouco antes de se formar, junto do amigo bioquímico Alberto Granado (Rodrigo de La Serna, primo de Che na vida real).
Como o próprio filme diz, ele é sobre “um pedaço de duas vidas que caminharam juntas durante algum tempo”. A fonte desta frase e de todo o resto para que Jose Rivera pudesse compor o roteiro foram dois livros. Um deles é o diário do próprio Che, chamado Notas de Viaje e traduzido para o português como De Moto Pela América Latina, lançado em 2001 pela Sá Editora. O outro livro é do amigo de Che, Alberto Granado, Con el Che por America Latina, ainda sem tradução para o português.
Assim, em 4 de janeiro de 1952, partiam de Buenos Aires montados na La Poderosa, uma motocicleta Norton 500, dois amigos com sonhos em comum, que tinham agora a estrada vazia e a América à sua frente. A idéia era percorrer cerca de 8 mil quilômetros até a Venezuela, em uma viagem que deveria durar de seis meses à um ano. A partir daí a atmosfera do filme troca a metrópole de Buenos Aires pelas estradas da América do Sul. Em seu roteiro os aventureiros encontram de tudo. Pessoas, animais, grandes e pequenas cidade. E é este encontro com os mais diversos tipos de realidade que começa a mudar o jovem Ernesto. É nesta mudança em que está focado o interesse do filme de Walter Salles.
Che tinha consciência de que, para poder tratar dos pobres, deveria saber quais eram as necessidades deles e quais eram as causas da sua pobreza. Uma simples viagem de turismo não lhe traria experiência alguma. Desta forma, exercendo sua profissão na estrada, em contato com o verdadeiro povo da América, poderia lhe fazer entender como as pessoas que não tinham perspectiva alguma, se desprendiam tão facilmente da idéia de humanidade. Entendimento da vida das pessoas que trabalhavam em minas, dos que não tinham emprego, dos que estavam doentes, dos que caminhavam quilômetros por um pouco d’água.
Nesta época, embora o comportamento propriamente revolucionário ainda não esteja presente em Che, o simples fato de dispor-se a uma aventura como esta pelos mais ermos lugares do continente já se constitui em um espírito, no mínimo inquieto, para um dos futuros líderes da revolução cubana. Nota-se que durante sua trajetória, Che começa a sentir a miséria em que vivem várias localidades da América do Sul. Ausência das condições mínimas de humanidade, depois de tanta exploração em uma terra que pertencia a seus antepassados. Rapidamente brotam de si sentimentos de compaixão e amor pelo próximo. É isso que faz com que Ernesto se instale por alguns dias em uma colônia de leprosos no vilarejo de San Pablo, depois de atravessarem a Amazônia peruana.
A diversidade de locais exibe variações de paisagens que favorecem, e muito, o trabalho de fotografia do filme, com variações de cores de acordo com a paisagem que passa por rios, montanhas, neve, desertos e até a umidade da Amazônia em um clima tropical. Comandada por Eric Gautier, a cinematografia se beneficia dos vários planos gerais, podendo utilizar a bela luz natural das paisagens andinas, com montanhas escondidas pelas nuvens, ou colocar La Poderosa rasgando uma estrada de chão e quando ela levanta poeira, faz nada menos que convidar o espectador à no mínimo planejar uma viagem do mesmo porte.
A trilha sonora conduz habilmente o sentimento de pé na estrada que caracteriza um road movie como este, mas, mais do que isso, está focada no interior dos personagens. O argentino Gustavo Santaolalla, responsável até então pelas trilhas de Amores Brutos e 21 Gramas, foi praticamente adotado por hollywood, que parece ter esquecido como despertar sentimentos em filmes e agora depende da trilha sonora para isso. O argentino segue de perto a atmosfera de descoberta e deslumbramento com o qual os dois protagonistas encaram sua subida América acima.
Depois de Diários, Santaolalla assinou ainda composição para O Segredo de Brokeback Mountain, para o drama feminista Terra Fria, para o superestimado Babel e já está confirmado como o cara da vez de On The Road, transposição do livro homônimo de Jack Kerouac, a ser dirigido por Salles com estréia para 2009. De quebra, a trilha ainda teve espaço para uma canção premiada com o Oscar, Al Otro Lado Del Rio, escrita pelo uruguaio Jorge Drexler. A primeira música de língua espanhola a ganhar o prêmio.
Não é para menos, já que a produção só viu a luz do dia e de um projetor de cinema graças a um consórcio entre nove países para ser produzido e rodado em mais de 20 locações diferentes. Walter Salles era o único brasileiro da produção e provou que este é seu melhor filme, com a mão ao mesmo tempo leve e segura na direção de um dos melhores atores de sua geração, Gael, em um personagem difícil e extremamente complexo, tendo que enfrentar o crivo da audiência de um Che que morreu cedo, mártir e pela causa que embala um país até hoje. Não, Walter Salles não precisa mais provar sua habilidade em construir narrativas onde o sentimento deve falar mais alto do que a bilheteria.
Mais do que isso, Diários não julga, apenas acompanha. Vê de perto as mudanças da passagem da fase adolescente para a fase adulta de uma das figuras políticas e culturais mais importantes do século XX. Salles posiciona sua câmera no exato momento em que surge na tela Che Guevara começando a deixar Ernesto para trás, o primeiro passo de uma jornada que só acabaria na sua morte. As duas horas de filme servem para entender que antes de um guerrilheiro, Che era uma pessoa comum, mas, com uma grande capacidade de se desprender de suas condições de vida materiais, capaz de viver em condições mínimas de higiene, capaz de despertar em si uma alma caridosa e de profunda vontade para com o próximo. Assim como não há julgamento no filme, neste texto quem decide é quem o lê. Temos à nossa disposição um material enriquecedor sobre a vida desta personalidade em filmes, livros, revistas, entrevistas, sendo que cabe a cada um decidir no que acreditar: no homem ou no mártir.
Diários de Motocicleta (Argentina, EUA, Cuba, Alemanha, México, UK, Chile, Peru e França, 2004)
Diretor: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
História: Ernesto “Che” Guevara e Alberto Granado
Elenco: Gael Garcia Bernal, Rodrigo de La Serna, Mercedes Morán
Duração: 126 min.
IMDB: www.imdb.com/title/tt0318462
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eesse filme ´muito bom eu amei 1000000
q orror esse filme e muito brega!pô
q merda
q porra q filme mais ruimmm
q porrrrra
vai toma nu cu