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No Direction Home: Bob Dylan*

Junho 1, 2007

Sem direção, sem intenção, mas sempre original como nenhum outro.Com estas mensagens Martin Scorsese ilustra habilmente a vida de um garoto que não queria ser astro. Muito menos líder político, mas que foi capaz de transformar um “manifesto” de 25 páginas em Like a Rolling Stone. Sem o menor esforço criou Blowin’ In The Wind, um dos maiores hinos do movimento contra o Vietnã, que ecoa até hoje pelas passeatas pró-direitos humanos. Contradição: essa é a principal característica de Bob Dylan.O filme adentra a história da música com ares de cult-movie, relembra o que Dylan fez em Nova York em 1961, pondo inicio ao futuro elo folk-blues-rock. As referencias estão por toda parte desde a infância em Minessotta até a chegada ao Greenwich Village: os primórdios do rock’n roll ainda na década de 50; influências da cena beat e a identificação de Dylan com On the Road, de Jack Kerouac; os monstros sagrados da música folk e do country; Woodie Guthrie e sua guitarra “essa máquina mata fascistas”; Pete Seeger, Johnny Cash e companhia; e é claro, um ranço de gente jovem com vontade de questionar o sistema.

A composição de Scorsese altera momentos com imagens de arquivo, apresentações, fotos e depoimentos extensos e detalhados do próprio Dylan. Desde o inicio de carreira nos bares de Nova York até o estouro nos festivais de Newport, passando é claro pela necessidade do público de alguém que trovasse com o folk e fizesse dele uma religião recheada de tradições da verdadeira música americana. Parece até propaganda dogmática, mas qual é a sociedade que não espera e pede por um líder?

A crise política nos Estados Unidos estava instaurada naquela época. Segregação, guerra, intolerância, caça às bruxas, medo do comunismo, explosão da juventude. O assassinato do presidente Kennedy já era um motivo para a tristeza e amargor social, rodeado por dúvida, suspense e talvez uma irresolução que ficará para sempre no imaginário americano. Era para fazer protesto que Dylan não aparecia, mas por outro lado, a genialidade de suas letras tornou cada mensagem por demais explícita. Se, por um lado Joan Baez abria o berreiro em manifestações e entrevistas, Dylan se revelava bem ao contrário. Não se sentia à vontade com elogios e não colocava em seus discursos altas filosofias e grandes enigmas.

Para ele, tudo era por demais simples e fácil, e considerava a política algo trivial. Em determinada altura do filme um repórter chega a perguntar se ele se sentia incômodo com a idéia de ser um líder da juventude e por que relutava tanto em falar sobre isso. A resposta veio seca e direta: “O que você quer exatamente de mim? Se quiser que eu levante gritando e arrebente as câmaras, diga, pois eu farei!”. Tentando explicar o fim de seu relacionamento com Joan Baez ele dispara: “Não consigo ser esperto e amar ao mesmo tempo”. Após a consagração nos palcos incorporando o espírito Woodie Guthrie, o público não recebeu tão bem a nova investida de eletrificar o folk proposta por Dylan. Vaiado pelo público, foi chamado de traidor do folk, a verdadeira música americana e fica claro no filme a insatisfação de Dylan com o público e sua constante procura por algo novo.

No entanto, é no inicio da segunda parte do documentário que podemos ter um aperitivo da genialidade de Dylan. A partir de duas placas publicitárias na rua, ele começa a compor o que poderia ser uma música ou alguns versos ali mesmo na calçada. Joan Baez diz no filme que a poesia simplesmente brotava dele. Isso aparece na sua inquietude no momento em que a partir algumas palavras ele compõe cerca de seis ou sete versos ou músicas diferentes. A partir de 1965 essa inquietude fica mais evidente e Dylan declara que “nasceu muito longe de onde deveria estar” e que “talvez estivesse voltando para casa”. É a partir daí que seu estrelato se torna mais confuso. Cada vez mais ousado e distorcido no palco, ele chega a irritar até mesmo seu amigo Pete Seeger no festival, supostamente folk, de Newport, mas que Dylan trata de transformar em mais uma apresentação histórica da junção que promovera na música.

Em 1966 Dylan volta da Inglaterra e sofre um acidente em sua motocicleta. Não tocaria em turnês por oito anos, coisa que já vinha anunciando há algum tempo. Neste ponto o Dylan do inicio da década virou o Dylan cansado, de tanta espoliação, vaias, condenações e reconhecimento fajuto. Parece ter um comportamento autista, se balançando para trás e para frente, visivelmente exausto.

Por fim, Dylan termina o filme como o “expedicionário da música”, segundo suas próprias palavras, procurando um lugar para ficar consigo mesmo e com sua música. É também o condenado pela liderança que não quis assumir e pela metamorfose que causou, mas que ninguém queria. Este filme que acompanha de lado o livro Crônicas Volume 1, lançado ano passado pela editora Planeta, constitui o resgate de episódios importantíssimos da música, ajudando a entender as intermináveis facetas de um dos mais inteligentes e incríveis cantores da história. Ainda: é artigo indispensável para quem gosta de Scorsese, literatura, música ou até mesma política e obrigatório para quem um dia já se sentiu inquieto, assim, como uma pedra rolante por aí.


No Direction Home – Bob Dylan (EUA, 2005)
Diretor: Martin Scorsese
Duração: 208 Minutos

Documentário

IMDB: www.imdb.com/title/tt0367555

 


*Texto originalmente publicado no site da Revista Glow

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